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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Colheres amigas

Gosto de pensar que eu era transgressora, embora meu pai me chamasse de danada e minha mãe de desobediente. O fato é que tinha essa alergia terrível e grande parte da minha rotina e da rotina dos meus pais era tangida pelas normas que ela impunha. Tinha a hora do remédio, da vacina, do banho de permanganato, da pomada e de um tanto de coisa. Mas na minha cabeça de criança isso nunca importou muito. Eu até achava legal quando tinha que aplicar vacina na escola. Meus coleguinhas me olhavam com aquela cara estranha enquanto eu fincava a seringa na coxa na maior naturalidade. Me sentia o próprio rambo.

A coisa só ficou ruim quando o médico proibiu qualquer derivado de leite. Sem bolo, biscoito, queijo, iogurte e requeijão eu passava fácil. Mas na hora que o médico decretou a sentença terrível tudo que vinha na minha cabeça era sorvete e chocolate. E quanto mais eu pensava que não podia sorvete e chocolate mais eu tinha vontade de sorvete e chocolate. Para piorar a situação, meus irmãos mais velhos se tornaram os próprios agentes do DOI-CODI lá em casa.“Mãe, a Ana engoliu um chocolate” ou então “Tem papel de bombom na mochila dela”. Os irmãos mais velhos são sádicos por natureza, deve ter um gene que explique isso.

A coisa foi ficando insuportável porque a minha mãe avisou na escola que eu não podia comer nada de leite. Para meu desespero, o diabo do médico tinha razão. Minha pele foi ficando cada vez melhor. Quanto mais eu melhorava da alergia mais eu pensava: “Putz... agora lascou tudo. Nunca mais como chocolate”.

A salvação veio em um dia de tarde. Comprávamos pão em um mercadinho perto de casa. Lá vendia sorvete, mas todos já estavam devidamente avisados sobre a proibição terrível. Um dia fui comprar pão e notei que o esquema do sorvete era meio falho. O refrigerador ficava no fundo da loja e precisávamos chamar alguém para extrair as preciosas bolas de sorvete. Ocorre que não havia tranca nem nada. Chamávamos a moça e ela vinha com a colher e a vasilha. Pronto! Captei a mensagem do cosmos salvador.

No outro dia fui comprar pão com uma colher no bolso. Era só abrir o refrigerador e zap!!! Colher no pote, colher na boca, colher de volta no bolso! Tudo muito rápido, frações de segundo, quase uma Schumacher. Era só uma colherada porque tenho ética. Eu sabia que não podia babar na colher e colocar ela de volta no pote. Aí descobri que minha casa tinha várias colheres. Só precisava sair de mansinho porque aquele tanto de colher chacoalhava e fazia um barulho danado. A alergia persiste, hoje muito mais branda. Não me arrependo não. De que vale a infância sem sorvete?

4 comentários:

juliodrocha disse...

Ana meu bem, seu blog ficou fera, muito bom mesmo, parabéns e beijos procêis. Rsrs

Fabiana Gomes disse...

Aninha,
adoro seus textos... Sempre falam de comida! HAUEHUAEUUE
E são deliciosos de ler!
Bjussssss

Letícia Tancredi disse...

Sempre falam de estripulias da Ana, isso sim...
Adorei a história. Acho que vou sempre andar com colheres no bolso.

Lígia disse...

Veja se pode!