Ocorreu um erro neste gadget

segunda-feira, 14 de março de 2011

Metafísica

Buraco azul: elevação subaquática gigante. Mais aqui.



A mim não foi dado o benefício da dúvida, sempre respondo. Havia em minha mãe uma crença quase palpável. Deus era como uma parente distante que viria nos visitar um dia. Era Deus isso, Deus aquilo. Talvez por isso eu tenha essa fé estranha, titubeante. Não frequento templos, mas rezo. Vez em quando me pego dialogando como faria com a tal parente distante. Permeia meu cotidiano. "Ô vaguinha boa, meu Deus. Obrigada". Daí sinto vergonha. Falar de fé, de Deus, saber os ritos como sei, as orações indicadas. Sinto como se fosse inversamente proporcional à inteligência. Tenho receio de dizer. Percebo nos olhos dos outros que não é uma qualidade, tampouco um defeito, mas atesta contra mim. Um ponto para a ignorância, por assim dizer. Hoje acredito porque quero. Acho trangressor, inclusive, e bonito. Nada tem a ver com justiça e revanchismo, não. Não creio num Deus armado, disposto a dividir a humanidade entre vascaínos e flamenguistas. No meu imaginário ele figura como um jardineiro. No meio do caos, o danado deve continuar adubando suas flores, na esperança de que despertemos e façamos o mesmo. Segue o poema que mais gosto sobre o assunto, do Fernando Pessoa, assinando como Alberto Caeiro. Boa quaresma a todos.


"Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das cousas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora".

O Guardador De Rebanhos
Alberto Caeiro
08-03-1914

quarta-feira, 9 de março de 2011

Alegria?


Carnaval é um período de festas regidas pelo ano lunar no cristianismo da Idade Média. O período do carnaval era marcado pelo "adeus à carne" ou "carne vale" dando origem ao termo "carnaval". (Fonte: Wikipedia)

Carnaval é tempo de alegria, dizem. Vestindo ou despindo máscaras, fantasias ou abadas, são cinco dias de álcool, drogas, música, sexo e folia. É como se fosse emitida uma licença para o abuso. Na televisão, repetidas em espiral, propagandas nos dão conta de que subitamente todos nos tornamos crianças e não sabemos como nos portar. O tom é professoral. “Se beber, não dirija. Se dirigir, não beba”. “Sexo, só com camisinha”. “Use roupas leves e beba bastante água”. É isso. Tornamo-nos todos idiotas e já não sabemos como nos prevenir ou como beber adequadamente. E o pior é que estão certas as propagandas. Tenho a sensação de que nos tornamos idiotas durante o carnaval. Estive adoentada nesse feriado e apenas na terça-feira de carnaval é que saí de casa com o propósito de aproveitar a folia. Fui ao carnaval de rua de Brasília, o famoso Pacotão. Farei um relato sucinto de acontecimentos que julguei bizarros, embora sejam corriqueiros durante a festa.
- Um conhecido de anos, casado, pai de duas crianças, sussurrou saliências em meu ouvido quando fui cumprimentá-lo. Bizarro.
- Duas moças muito bonitas, com músculos torneados, pediram gentilmente para que eu parasse de brincar com minha espuma (aquela de jogar para cima) caso não quisesse apanhar. Bizarro.
- Cinco marmanjos, juntos, se achavam no direito de tecer comentários a respeito da aparência de todas as mulheres que passavam por perto, acompanhadas ou não.
Enfim... bizarro. Fico feliz que tenha acabado. Agora é tempo de contabilizar os mortos em acidentes de trânsito, overdoses, bebedeiras, ataques cardíacos e afins. Feliz ano novo!
Rodovias federais têm 189 mortes em cinco dias.