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domingo, 29 de abril de 2012

Eu apanhei, tu apanhaste, ele/ela apanhou





Esse domingo estava conversando com um amigo e chegamos a uma conclusão óbvia: na minha geração era comum bater nas crianças. Eu apanhei. Todo mundo meio que apanhava. Lembro de chegar na escola comentando que tinha apanhado e escutar minha amiga dizer: “putz, eu apanhei semana passada”. Falando assim parece que estávamos sendo espancados, todos nós, mas não. Era uma lógica comum, sabe? Puxão de orelha, beliscão e cascudo comia solto. O treco era disseminado. Era a época das havaianas de pau. Irmanados nessa realidade absurda, fazíamos piada com a coisa. Tinha aquela de reparar no chinelo dos pais (e mães). Rider era fatal. O bicho era bruto. Chinelada de Rider levantava vergão até no Hulk. “Caraca... a mãe de fulano usa rider”, e todos entendíamos a piada. Era engraçado, de verdade.

Hoje fico vendo essa discussão sobre a lei da palmada. Eu não tenho filhos, mas sou impaciente. Não sei dizer, sendo bem sincera, se poderia criar um filho sem nunca, jamais, perder as estribeiras. Especialmente porque hoje em dia os pais criam os filhos até os trinta e tal.  Sou contra a palmada, entretanto. Contra mesmo.  Não educa não, minha gente. O que educa é diálogo, exemplo. Bater humilha. Eu me sentia humilhada quando vinham as palmadas. Era o último recurso, né? Era a decisão do STF. Preciso dizer que fui danada? Óbvio que era encapetada, quase um saci. Minha mãe, coitada, vai ejetar direto pro céu. Sobe que nem foguete, aquela ali... certeza. Teve três filhotes para madre Teresa nenhuma botar defeito. Mas sei lá... discordo da minha criação nesse aspecto (e em vários outros), apesar de achar que os velhos trabalharam bem. Bater é ruim, gente. Apanhar é pior ainda.

domingo, 22 de abril de 2012

Cusparada de candanga

Tão poucos somos, os teus.
Uns poucos filhos, uns poucos poetas, uns poucos a cantar-te a generosidade, grande Brasília.
E tu, tão nobre.
Difamada por aqueles que passam e não são.
Tu és.
Tu és espaço.
Tu és cenário, perene.
Querida, tão difamada...
Crucificada apesar de aberta, como Cristo.
De mãos estendidas, sempre a cobrir de luxo os que te cospem na face.
Tão jovem, talvez a mais jovem dentre as grandes.
E tão cobrada, coitada, a caçula das capitais.
Como é grande a tua luta.
E como te levanta, sempre.
Tinge os dias de aquarela e segue.
Que recebes, querida?
Fecha tuas portas.
Oferece teu céu aos que te amam.
Mas não. Segues teu trajeto, a despeito da dor dos seus.
Hoje é teu aniversário. Que receberás?
Umas cusparadas, por certo. Outras ignonímias tantas.
Hoje é teu aniversário. Que receberás?
Uma festa, uns fogos, uns cantores – todos ávidos de dinheiro e carentes de amor a ti.
Terra minha, pudesse te abraçaria.
Por um minuto, te envolveria, Brasília, nos braços e sussurraria meu amor.
Hoje é teu aniversário, mãe querida.
Um brinde a quem me deu a vida!

sábado, 21 de abril de 2012

Brasília 52


Quando era criança, detestava o fato de ser brasiliense. Queria ser maranhense ou carioca, como meus pais. Queria ir embora da cidade sem mar, sem esquinas e sem vizinhos que vêm bater na porta pra papear. Queria ter sotaque - 'afinal, por que brasiliense não tem sotaque?' Detestava ser chamada de candanga. Mais ainda ouvir dizer que morava na cidade dos ladrões.

Tudo começou a mudar quando um dia - bem longe daqui - comecei a conversar com alguém que, pelo meu jeito de falar, me perguntou quase afirmando: 'Você é brasiliense, né?' Qual não foi a minha surpresa: brasiliense tem sotaque!

E fui além: minha cidade não tem mar, mas tem um céu que nenhuma outra tem. Não tem esquinas, mas quem precisa delas? Não tem vizinhos que se falam com frequência, mas tem gente boa em todo o canto e vinda de todos os lugares do Brasil e do mundo.

Sou candanga sim. Não ajudei a construir Brasília com a força dos meus braços, mas ajudo a modelar sua civilidade.

E por fim, se a cidade abriga tantos políticos corruptos, a culpa é de quem - em outros estados - os manda para cá, por meio da mediocridade dos seus votos. Não eximindo a culpa dos próprios eleitores do DF que também elegem mal seus governantes, claro.

Hoje, eu amo Brasília. Entendi que é peculiar demais ser brasiliense; afinal, somos poucos os nascidos aqui (não se vê uma velhinha nativa, por exemplo). Mas que, acima de tudo, todos os brasilienses carregam em si um pouquinho do Brasil todo.

Parabéns, Brasília! #52anos

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Amarrada, eu??


Tinha os dentes de cima bons, bonitos. Os de baixo eram tortinhos, mas nunca liguei. Achava que essa lógica euclidiana e dodecassílaba valia lá para os parnasianos, não para dentes. Aqui, onde triturava os alimentos, onde mascava pedaços de coisas, salivava e babava, lambia doces, feridas e pessoas... aqui na boca - pensava eu com meus botões - é bem mais honesto que exista uma desordem aparente, ainda que pequena.

De mais a mais, gostava dos tortinhos, da marca da mordida nos copos de plástico e maçãs. Achava que era inconfundível. Um belo de um dia, surge uma dor de cabeça. Os dentistas já haviam avisado que o aparelho era necessário, que podia acarretar enxaquecas, que havia lá um desvio na mandíbula, etc. Resolvi consultar o dentista que, logicamente, culpou a mordida pelas dores de cabeça e traçou um método para corrigir a mordedura. Tudo muito calculado. Fotos, radiografias, moldes. Dois anos de tratamento. Dois anos?? – perguntei atônita. Dois anos ou o resto da vida com enxaqueca – foi a resposta, das mais cínicas, como se vê.

Isso foi há um ano e quatro meses. Faltam oito, portanto. Não há um só dia em que eu não pense no assunto. Seja pelos lábios grudados no ferro do aparelho quando acordo ou pelas babadas incontroláveis que solto quando converso. Fato é que o danado do aparelho não me dá sossego, permeia meu cotidiano, sempre indelicado e incômodo. É a vergonha de sorrir, a necessidade de explicar, a preocupação com a limpeza, a dor quando me bato sem querer, a dificuldade de morder, a saudade do sorriso nas fotos e mais um tanto de coisinhas.

Hoje tive um insight. É um casamento. É um casamento! Isso de conviver tão entrelaçadamente, de me sentir tão exposta e vulnerável, isso é como um casamento. Estou seguindo – assim como quando me casei – as recomendações da sociedade. Fazendo tudo certinho para alcançar um bem maior ali adiante. Isso ou o resto da vida com enxaqueca, certo? Aquilo ou o resto da vida com a dúvida, com o receio de não ter tentado, sozinha num apartamento com 15 gatos, três cachorros e um papagaio, certo? Sei não, heim... os que já tiraram o aparelho sempre dizem que, extraídas as porções de ferro, a sensação é de nudez, de vazio. “Você vai sentir até falta” – já me disseram também. Seguindo a lógica do insight, deve fazer falta mesmo, especialmente num primeiro momento. Mas olha, minha gente...ninguém tira da minha cabeça que minha vida será melhor sem o aparelho. ;)

P.S: Não convém digitar “aparelho” e “boca” na pesquisa de imagens do Google.