Há dias em que acordo com vontade de ser igual ao Forrest Gump: contar histórias ou sair correndo. Hoje, resolvi contar histórias.
Um dia, minha bolsa foi roubada. Tinha tudo lá dentro; e até mais um pouco. Desde o óbvio e indispensável, como carteira, documentos e chaves, até o supérfluo, como guarda-chuva, iPod, agenda e óculos de sol.
O meliante fugiu bem rápido. Debaixo de chuva, seus pés calçados em chinelos desgastados pisavam – um tanto trôpegos dada a adrenalina do momento – nas poças de água e lama formadas pelo temporal que caía na noite de uma quarta-feira qualquer, em uma quadra qualquer do plano piloto. Dois rapazes prestativos ainda tentaram correr atrás dele. Em vão.
Enquanto isso, eu, cheia de sacolas de compras nas duas mãos (aliás, até hoje tento imaginar como o malandrinho conseguiu arrancar a bolsa de meus ombros e passá-la por minhas mãos grudadas firmemente aos sete ou oito sacos plásticos cheios de enlatados e congelados, um tanto pesados, sem derrubar tudo. Acho que ele era mágico.)... O que eu dizia? “Dizia eu que a aritmética...” Não, não, dizia eu que fiquei ali parada, enquanto os rapazes corriam atrás do pivete (sim, era um menino, um adolescente franzino), ainda com as sacolas nas mãos, um tanto pasma, meio sem entender o que havia ocorrido.
Ainda com essa sensação, pensei no que fazer. “O que as pessoas fazem nesse caso?” Gritei um pouco – não é isso que se faz? – Pega ladrão! Socorro! Coisas do tipo. Ah, sim, não pense que foi efeito retardado; esse pensamento-e-ato se passou no segundo seguinte ao do ocorrido. Não se admire com minha reação; em 27 anos de existência, nunca havia sido roubada. Furtada, aliás, como disse o delegado que fez o “bê ó”. Furtada, na condição de transeunte, para ser mais exata na transcrição das palavras dele.
Tudo o que se passou depois, não vou detalhar tanto. O boletim de ocorrência, registrei. O celular e os cartões, bloqueei. A fechadura de casa, troquei. Os documentos, achei (parece que o furtador não se interessou pela minha carteira de motorista, minhas carteirinhas de estudante e do clube, nem meus cupons promocionais de restaurantes e largou tudo isso no meio do caminho). Enfim, ficou tudo bem.
Mas, me ficou um vaziozinho, uma pontinha de não-sei-quê. Não sabia o que era. O susto já tinha passado. Eu estava intacta. Meus documentos e cartões, protegidos. Ok, pensei na ineficácia do Estado sim, na falta de segurança, no crescimento da violência urbana, na oportunidade de educação que o coitado do garoto talvez não tivesse tido.
Dias depois, entendi o que eu sentia. Era saudade. Das pequenas coisas que faziam parte do meu cotidiano, que estavam naquela bolsa, mais difíceis de serem recuperadas do que meus documentos. E das quais eu gostava. Eram minhas. Bem minhas.
A agenda, com anotações do que teria que fazer nos próximos dias, com contatos e rabiscos, com receitinhas aleatórias e mapa da casa de amigos. A bolsinha de maquiagem, com aquele batom cremoso, de cor marrom, com brilho, que ganhei de presente da minha mãe e nunca vi igual por aqui. O óculos de sol grande e redondo, que tinha uma alça quebrada, colada com super-bonder pelo meu marido, que o fez com todo cuidado e carinho. O guarda-chuva vermelho, que era pequeno, fácil de guardar e me salvou de tanto apuro nos dias de chuva intensa ao sair do cabeleireiro – e me colocou em um tanto de apuro também nos dias de tempestade, já que era frágil e virava do avesso na primeira rajada de vento forte. O iPod, não o iPod em si, mas os 3,9 giga de músicas contidas nele, escolhidas com esmero, na ordem em que eu gostava de escutar.
Aquela caneta sem tampa.
Aquele pente sem dois dentes.
Há coisas que não se recuperam. Se substituem. Que são nossas durante muito tempo, mas no minuto seguinte não são mais. Que parecem fúteis, mas fazem falta. Não pelo poder de usufruto, e sim pelas características únicas que adquirem a partir do momento que passam a fazer parte de você. São suas. Bem suas.
Espero, pelo menos, que o ladrão faça bom proveito das coisas ex-minhas.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Violência gratuita
Postado por Clarinha às 18:18 Marcadores: Aleatórias 7 comentários
Estava guardada numa gaveta, deslocada pra lá e pra cá em mil mudanças, e eu não me lembrava. Era uma das edições da coluna do Contardo Calligaris, publicada em 4 de setembro de 2008 na Folha de São Paulo –, em que o psicanalista fala sobre ciúmes.
Pois não imaginaria, quando meti o texto na gaveta, que o assunto daquela coluna guardaria estreita relação com um episódio assombroso da minha vida, que viria a acontecer mais de um ano depois da data de publicação.
Há dois dias, recebi de uma conhecida uma mensagem de texto de um ódio pulsante, enviada por sms para meu celular. Não reproduzirei aqui as palavras chulas que qualquer mente pouco imaginativa poderá certamente representar com fidelidade. A portadora dos maus sentimentos é uma mulher traída. O namorado, ao se ver longe dela, buscou consolo nos braços de outra mulher. O meu pecado, imperdoável, foi o de ser amiga da outra, de ser intimamente ligada ao objeto da raiva da mulher traída, àquilo que desencadeou o sentimento de ameaça ao relacionamento cambaleante da traída e feriu seu amor próprio.
Incapaz de agarrar com as próprias mãos a suposta rival, a traída canalizou toda a raiva a mim - mais facilmente acessível graças à tecnologia de emails, chats e sites de relacionamentos. Foi a mesma tecnologia que estimulou o desejo incontrolável da traída de alimentar seu próprio ciúme. Segundo o namorado, foi por causa de uma invasão ao seu email pessoal que a traída descobriu o componente que faltava para justificar o ciúme. De acordo com Contardo, nem sempre o ciúme é reativo: às vezes, o ciumento inventa (ou procura) situações para alimentar seu ciúme. De posse da senha roubada do namorado, é bem provável que a traída tenha vasculhado mensagens antigas – já que o encontro com a outra ocorreu uma única vez há muitos meses passados - até encontrar algo que finalmente comprovaria sua tese desfiada dolorosamente há tempos: a de que o namorado não a ama como ela a ele e que, por isso, a trai, mente, esconde.
Ao arrombar as portas da intimidade virtual do namorado, a ciumenta também invadiu o programa de chat ligado ao e-mail, em que o rapaz me tinha entre seus contatos, e aproveitou a empreitada para lançar mais desaforos a mim. Além das palavras baixas, ameaças.
Seria um episódio lamentável e triste apenas, caso eu não estivesse grávida dos primeiros meses. Esta é uma fase em que uma grande alteração hormonal pode afetar seriamente a vida do bebê e a saúde da mãe. E eu me senti assustada e indefesa, diante de agressões gratuitas. Especialmente por, ao procurar a polícia, descobrir que estava em greve. “Só atendemos flagrantes”. Mas esse não é mesmo um caso flagrante de violência gratuita, indaguei inconsolada a mim mesma.
Em face do total descontrole da traída, de suas reações irascíveis e da falta de apoio público, procurei no texto de Contardo alguma explicação da psicanálise. “Os terapeutas psicodinâmicos notam que o ciumento é mais preocupado consigo e com seus rivais do que com o objeto de seu amor”. Logo, não há uma ética, uma conduta apropriada ou um limite capazes de frear os ímpetos destruidores do ciumento frente aos outros e até a si mesmo. Não importa à ciumenta, portanto, se o seu relacionamento torna-se escandalosamente dilacerado, se outros são atingidos, se há na história alguém mais frágil.
Ao que me parece, importa unicamente ao ciumento alimentar o próprio ciúme, e alimentando-o, nutrir também o seu desejo de vingança, principalmente, relativo ao rival ou a um terceiro, na tentativa vã de se livrar do sentimento que cultiva. Eu sou a terceira.
Mas, para além de tentar entender o comportamento violento, de tentar me proteger de alguma maneira, de me livrar do susto e do medo, senti uma tristeza, uma descrença grande demais nas pessoas, em qualquer pessoa, no amor. Como, afinal, esse sentimento pode atormentar e ultrajar tanto? Como amor e ódio podem ser assim tão entranhados? Acordei no meio da noite com pesadelos. Não pensava na ciumenta, pensava no meu filho nesse mundo de gente que comete violências gratuitas, que fere sem sentir. Chorei.
De manhã, vesti mecanicamente as roupas. Pensei no Estado que nunca está presente na vida dos cidadãos, nessa greve da polícia, no dia de trabalho pouco estimulante. Tomei café frio e evitei ligar o ipod no carro. Ao chegar ao trabalho, fui abordada pela guardete que confere os crachás de todos ao entrar. “O que é?”, perguntei com pressa e desdém. “É que você anda tão bonita ultimamente, linda. Eu tenho reparado isso e até comentei com sua colega. O que você tem de novo?”, surpreendeu-me. “Acho que é a gravidez”, respondi, me abrindo de novo em sorrisos. “Nossa, muitas felicidades, muitas felicidades!”, disse, comovida.
Sim, me lembrei. Também há no mundo as pessoas que causam pequenas felicidades assim, sem sentir. Eu espero que meu filho seja uma dessas pessoas. Que ele, ou ela, emocione mais que maltrate, faça rir mais que chorar, que se pareça mais com o pai que comigo e que, por isso, leve a vida mais leve, que saiba amar.
Pois não imaginaria, quando meti o texto na gaveta, que o assunto daquela coluna guardaria estreita relação com um episódio assombroso da minha vida, que viria a acontecer mais de um ano depois da data de publicação.
Há dois dias, recebi de uma conhecida uma mensagem de texto de um ódio pulsante, enviada por sms para meu celular. Não reproduzirei aqui as palavras chulas que qualquer mente pouco imaginativa poderá certamente representar com fidelidade. A portadora dos maus sentimentos é uma mulher traída. O namorado, ao se ver longe dela, buscou consolo nos braços de outra mulher. O meu pecado, imperdoável, foi o de ser amiga da outra, de ser intimamente ligada ao objeto da raiva da mulher traída, àquilo que desencadeou o sentimento de ameaça ao relacionamento cambaleante da traída e feriu seu amor próprio.
Incapaz de agarrar com as próprias mãos a suposta rival, a traída canalizou toda a raiva a mim - mais facilmente acessível graças à tecnologia de emails, chats e sites de relacionamentos. Foi a mesma tecnologia que estimulou o desejo incontrolável da traída de alimentar seu próprio ciúme. Segundo o namorado, foi por causa de uma invasão ao seu email pessoal que a traída descobriu o componente que faltava para justificar o ciúme. De acordo com Contardo, nem sempre o ciúme é reativo: às vezes, o ciumento inventa (ou procura) situações para alimentar seu ciúme. De posse da senha roubada do namorado, é bem provável que a traída tenha vasculhado mensagens antigas – já que o encontro com a outra ocorreu uma única vez há muitos meses passados - até encontrar algo que finalmente comprovaria sua tese desfiada dolorosamente há tempos: a de que o namorado não a ama como ela a ele e que, por isso, a trai, mente, esconde.
Ao arrombar as portas da intimidade virtual do namorado, a ciumenta também invadiu o programa de chat ligado ao e-mail, em que o rapaz me tinha entre seus contatos, e aproveitou a empreitada para lançar mais desaforos a mim. Além das palavras baixas, ameaças.
Seria um episódio lamentável e triste apenas, caso eu não estivesse grávida dos primeiros meses. Esta é uma fase em que uma grande alteração hormonal pode afetar seriamente a vida do bebê e a saúde da mãe. E eu me senti assustada e indefesa, diante de agressões gratuitas. Especialmente por, ao procurar a polícia, descobrir que estava em greve. “Só atendemos flagrantes”. Mas esse não é mesmo um caso flagrante de violência gratuita, indaguei inconsolada a mim mesma.
Em face do total descontrole da traída, de suas reações irascíveis e da falta de apoio público, procurei no texto de Contardo alguma explicação da psicanálise. “Os terapeutas psicodinâmicos notam que o ciumento é mais preocupado consigo e com seus rivais do que com o objeto de seu amor”. Logo, não há uma ética, uma conduta apropriada ou um limite capazes de frear os ímpetos destruidores do ciumento frente aos outros e até a si mesmo. Não importa à ciumenta, portanto, se o seu relacionamento torna-se escandalosamente dilacerado, se outros são atingidos, se há na história alguém mais frágil.
Ao que me parece, importa unicamente ao ciumento alimentar o próprio ciúme, e alimentando-o, nutrir também o seu desejo de vingança, principalmente, relativo ao rival ou a um terceiro, na tentativa vã de se livrar do sentimento que cultiva. Eu sou a terceira.
Mas, para além de tentar entender o comportamento violento, de tentar me proteger de alguma maneira, de me livrar do susto e do medo, senti uma tristeza, uma descrença grande demais nas pessoas, em qualquer pessoa, no amor. Como, afinal, esse sentimento pode atormentar e ultrajar tanto? Como amor e ódio podem ser assim tão entranhados? Acordei no meio da noite com pesadelos. Não pensava na ciumenta, pensava no meu filho nesse mundo de gente que comete violências gratuitas, que fere sem sentir. Chorei.
De manhã, vesti mecanicamente as roupas. Pensei no Estado que nunca está presente na vida dos cidadãos, nessa greve da polícia, no dia de trabalho pouco estimulante. Tomei café frio e evitei ligar o ipod no carro. Ao chegar ao trabalho, fui abordada pela guardete que confere os crachás de todos ao entrar. “O que é?”, perguntei com pressa e desdém. “É que você anda tão bonita ultimamente, linda. Eu tenho reparado isso e até comentei com sua colega. O que você tem de novo?”, surpreendeu-me. “Acho que é a gravidez”, respondi, me abrindo de novo em sorrisos. “Nossa, muitas felicidades, muitas felicidades!”, disse, comovida.
Sim, me lembrei. Também há no mundo as pessoas que causam pequenas felicidades assim, sem sentir. Eu espero que meu filho seja uma dessas pessoas. Que ele, ou ela, emocione mais que maltrate, faça rir mais que chorar, que se pareça mais com o pai que comigo e que, por isso, leve a vida mais leve, que saiba amar.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Simples assim
Postado por Letícia às 15:55 Marcadores: Aleatórias 4 comentários
Um olhar. Uma brisa. Um sorriso.
Um pingo de chuva. Um raio de sol. Uma pequena nuvem.
Um risco. Um rabisco. Asterisco?
Aquele. O outro. Esse mesmo.
A vida. O amor. A gratidão.
Deus.
Somente. Sem mais. Tudo junto.
Pular o muro. Fugir na kombi. Mas não assaltar o caixa.
Dançar.
Dançar muito.
E esquecer. E lembrar. E fingir que não aconteceu.
E acreditar que aconteceu, mesmo não tendo acontecido.
Ou sim.
Respirar. E viver, viver muito. Ou viver pouco, mas bem.
Uma laranja. Uma banana. Ou nada disso.
A borboleta. O medo. Uma superação.
Foi-se. Vai-se. E volta.
A poesia.
A não-poesia.
Um olhar perdido. E um sorriso qualquer.
Simples assim. Ou difícil. Daquele jeito.
Um pingo de chuva. Um raio de sol. Uma pequena nuvem.
Um risco. Um rabisco. Asterisco?
Aquele. O outro. Esse mesmo.
A vida. O amor. A gratidão.
Deus.
Somente. Sem mais. Tudo junto.
Pular o muro. Fugir na kombi. Mas não assaltar o caixa.
Dançar.
Dançar muito.
E esquecer. E lembrar. E fingir que não aconteceu.
E acreditar que aconteceu, mesmo não tendo acontecido.
Ou sim.
Respirar. E viver, viver muito. Ou viver pouco, mas bem.
Uma laranja. Uma banana. Ou nada disso.
A borboleta. O medo. Uma superação.
Foi-se. Vai-se. E volta.
A poesia.
A não-poesia.
Um olhar perdido. E um sorriso qualquer.
Simples assim. Ou difícil. Daquele jeito.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Bon día, Barcelona
Postado por Clarinha às 19:29 Marcadores: Aleatórias 2 comentários
No aeroporto lhe disseram que era fácil chegar à casa do amigo que ela nem sabia se estava à sua espera. “Basta pegar a linha 3 do metrô”. A informação veio em espanhol amável. Bom começo pra quem enfrentaria dias de catalão. Meio português, meio italiano, meio francês. “Definitivamente, língua latina”, sentenciaria dali a alguns dias. O guarda apontou com o braço esticado o caminho. Pessoas lendo as primeiras notícias da manhã, caras amassadas, fones de ouvido. Olhando para o nada, para os trilhos que não se vêem de dentro do vagão, aquela massa de gente às oito horas rumava para o trabalho. A vida segue no verão. Ela ansiava em ver a vida acontecer, em ir à praia. “Será que tenho coragem de fazer topless?”, cogitou.
O amigo se lembrava dela. Tinha se esquecido de deixar as chaves na caixa de correio. Toda viagem tem seus contratempos. Em cima da garupa da moto do anfitrião (coisa que nunca tinha pensado fazer) deixou os cabelos e o pensamento correr. Viu a Casa Batlló, parou na Sagrada Família. O moço queria logo impressioná-la. Não parava de falar da arquitetura de Gaudí, um catalão muito famoso. Só ficou mesmo na memória a cara do Cristo que a acompanhava onde fosse. Lembrou dos olhos da Mona Lisa. O Cristo encravado na entrada da igreja inacabada, com a cara pesada e grave, com a cara tão triste. E ainda nem tinha visto o outro lado da construção: a parte gótica. Sentiu calafrios.
O estômago roncava. Não achou graça nenhuma da comida francesa. Será que é por que comeu barato demais? “Se só o caro apetece, então não presta mesmo”, radicalizava. Naquela hora, até um brioche amanhecido servia. Descobriu as tapas. E a papas. Confundia toda hora. As papas vêm em tapas. Tudo vem em tapas, perceberia afinal. Tapas são porções. Papas, batatas. E como amou aquelas batatas com uma espécie de molho de alho com queijo. Dos pimentões verdes assados ainda sente o ardor. A boca enche d’água. Sim, preferiu a comida espanhola. Que os catalães não a ouçam generalizar.
Teve vontade de andar de bicicleta. Tantas bicicletas estacionadas. “Deveria me exercitar mais em Brasília”, sentiu pena. Usou o metrô. Satisfez a consciência pesada de tanta comida ao andar a pé. Seu senso de direção desusado rejeitou mapas e dirigiu-a a becos repetidos, ruas estreitas, muros de pedra, varandas abertas para o verão. Deixou-se vagabundear. Observou furtivamente transeuntes descolados, arranha céus deslocados.
No parque Guell, revisitou Gaudí. Agora, muito mais alegre. Em geral, não gostava de tanta gente reunida. Naquele dia, achou graça em tentar adivinhar o idioma falado pelo grupo ao lado. Ouviu um punhado de cantores de rua ensaiar garota de Ipanema. Percebeu um violoncelo ao longe. Passou não se sabe quanto tempo perdida entre jardins de mosaico, colunas e viadutos majestosos. Os minutos não contavam.
Teve tempo de olhar o mar do alto. Espiar os barcos. De lá de cima, imaginou os milhões de casais entrelaçados naquele instante em cada canto. Despediu-se do amigo, dos amigos do amigo. Prometeu encontros, telefonemas. Trocou endereços de e-mail. Mais um trem pela frente. Testaria seu espanhol em Madri.
Texto baseado em fotos de Monique Renne
terça-feira, 19 de maio de 2009
Movimento dos Sem Movimento
Postado por Letícia às 12:18 Marcadores: Aleatórias 4 comentários
Numa tarde de quarta-feira, em abril, peguei a BR 174, saindo de Cuiabá para o interior do Mato Grosso. A viagem até meu destino tem cinco horas de duração, em média. Não fosse pelos buracos e desníveis da pista, o trajeto estava perfeito: nenhum (ou quase nenhum) caminhão na estrada e até o clima, sempre tão quente e úmido na região, ajudou, já que estava nublado e um tantinho mais fresco.
Peraí, nenhum caminhão na estrada? Até o motorista estranhou. Descendente de japonês, nascido em Marília (SP) e morador do Mato Grosso há mais de 20 anos, seu Mikió - que eu insistia, sem querer, em chamar de sr. Miyagi, o instrutor de Daniel-san no clássico Karatê Kid - era acostumado a fazer aquele percurso quase toda semana e disse não ser nada normal a falta de caminhões. De tempos em tempos, dava um sorriso alto e largo e bramava: “Estamos com sorte!”
Não era sorte; descobriríamos mais à frente, logo após passar por um posto de gasolina e ver cerca de 30 caminhões parados no pátio do posto. Logo após, também, parar em um posto na cidade de Cáceres e ouvir um zumzumzum entre brasileiros e bolivianos (Cáceres fica a 30 km da Bolívia) sobre um certo bloqueio na estrada. E logo após, finalmente, chegarmos ao tal bloqueio.
De longe, avistamos uma fila de carros e caminhões a perder de vista. Os motoristas, em pé, sentados na calçada, parados olhando para o tempo como o cara aí da foto, reunidos em grupinhos, até jogando um baralho. Uns balbuciavam reclamações, com semblante cansado ou preocupado. Outros arriscavam uma soneca, deitados em seus veículos. Mikió, devagarinho, foi ultrapassando quantos deu, já que a contramão estava livre, até que parou entre dois caminhões e resolveu descer para perguntar o que estava acontecendo.
Descobrimos o que sr. Miyagi já havia palpitado assim que vimos os veículos parados: era uma barreira do MST. Manifestantes do Movimento dos Sem-Terra bloquearam a rodovia, como parte do “abril vermelho”, em que eles fazem mobilizações e invasões no país todo para relembrar a morte de 19 integrantes do movimento, num confronto com a polícia militar, em Eldorado do Carajás (PA) há 13 anos. Os sem-terra também reinvidicavam o assentamento das famílias acampadas há mais de cinco anos às margens da pista e uma linha de crédito específica para a produção agrícola nos assentamentos.
Fiquei pensando no poderio que o MST adquiriu, à base da força, nos últimos anos. A interdição no Mato Grosso teve a presença de mais ou menos 130 manifestantes, que tinham em mãos enxadas e foices. A rodovia ficou fechada de sete da manhã às seis da tarde, com passagem liberada apenas para ambulâncias. A maioria dos carros desviou por uma estrada de terra; por isso, a barreira prejudicou principalmente aos caminhões. No fim, os prejudicados viram prejudicadores e sai todo mundo no prejuízo.
Minha sorte e de meu amigo japa seu Mikió foi que chegamos ao bloqueio às 17:30h e esperamos só meia hora para dar seguimento ao trajeto. Pior foi, aberta a rodovia, enfrentar aquele trânsito infernal e ultrapassar caminhões até chegar à cidade para onde íamos. Depois, fiquei sabendo de mais bloqueios nos dias seguintes. Na volta, pedi para viajar de noite e não correr o risco de ficar parada na estrada novamente.
O certo é que os movimentos “dos sem”, em geral, começam com uma causa nobre e acabam virando um monstrinho. Até entendo a máxima que diz “se não vai pelo amor, vai pela dor”, mas a violência e a insensatez fazem com que, no fim, alguém saia perdendo e não o contrário. O dos sem-terra é um movimento emblemático, mas dá para citar outros, como o dos sem-teto, sem-universidade e – pasmem! – dos sem fibra ótica, em Portugal. Até movimento dos sem-namorados inventaram agora. Esse, claro, nasceu como uma brincadeira, assim como o dos sem-praia.
Mas, do jeito que tá todo mundo doido, vai que eles inventam de se tornarem sérios. Vai que o dos sem-namorados resolve fazer barreiras aos restaurantes, hotéis e locais românticos em 12 de junho. Ou vai que o dos sem-praia sequestre os siris, por um pedaço de areia e mar. Hoje, quem não se filia, se arrelia. Vou me filiar ao Movimento dos Sem Movimento. Quero um movimento para mim também. Já.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Aniversário?
Postado por Ana Guimarães às 09:48 2 comentários
Envelhecer é perder certezas. Prestes a comemorar outro aniversário, questiono cada dia mais e respondo cada dia menos. Agora, em plena tensão pré-aniversário, volta e meia me pergunto quem é essa pessoa que passei a ser. Antes detestava qualquer mistura de doce com salgado e hoje corto mangas na salada. E também detestava felinos e hoje minhas duas gatas trazem os melhores momentos do dia. “Você não adorava frango?”, pergunta minha mãe atônita enquanto digo que já não como aves há três anos. E não, não...já não me importo tanto com esse arsenal de celulites, estrias e afins. E, definitivamente, sei que jamais terei seis filhos.
Então tá... chegaremos ao final da dinastia dos vinte anos e não, não sou bem-resolvida, não tenho o emprego dos meus sonhos, ainda carrego várias mágoas e continuo indiscreta e falante. Em minha defesa, posso afirmar que gosto mais de mim. Hoje tenho olhos mais benevolentes, por assim dizer. Sinto-me viva. Choro quando necessário, rio quando quero, durmo com as luzes acesas, ando descalça, como porcaria, ultrapasso o limite da bebida e dirijo cantando. Lembra da música do Caetano? Nine out of ten movie stars make me cry. I'm alive.” Viva, muito viva. Que venham os anos.
Então tá... chegaremos ao final da dinastia dos vinte anos e não, não sou bem-resolvida, não tenho o emprego dos meus sonhos, ainda carrego várias mágoas e continuo indiscreta e falante. Em minha defesa, posso afirmar que gosto mais de mim. Hoje tenho olhos mais benevolentes, por assim dizer. Sinto-me viva. Choro quando necessário, rio quando quero, durmo com as luzes acesas, ando descalça, como porcaria, ultrapasso o limite da bebida e dirijo cantando. Lembra da música do Caetano? Nine out of ten movie stars make me cry. I'm alive.” Viva, muito viva. Que venham os anos.
Quem quiser curtir a música do Caetano, segue o video.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
E o troféu vai para...
Postado por Bananas e Laranjas às 14:14 Marcadores: Vídeos 1 comentários
Que rufem os tambores! Eis o Top 5 Bananas e Laranjas dos vídeos mais engraçados dos últimos tempos. Agradecemos a participação, por comentário e e-mail, dos amigos, colegas, conhecidos e desconhecidos na votação. E a ordem é essa:
Em quinto lugar, o fofíssimo bebê que bamboleia como ninguém!
Na quarta posição, a senhora que manda bem no rap. Greta Segerson tá com tudo! Rimpalabiparti, a diá, diá...
Em terceiro, a menininha mais meiga e delicada, que trata tão bem seus coleguinhas na hora de brincar. Liciane Pescotapa!
A medalha de prata vai para ele, o Michael Jackson indiano, referência no mundo da música, da dança e da interpretação... GOLIMAR-MAR-MARRRRR!
No lugar mais alto do pódio, um repórter que nunca imaginou se dar mal ao tocar em inocentes uvas: Lasier Martins e seu famoso choque! Só para registrar, esse vídeo nos rendeu as melhores risadas e imitações possíveis nos nossos momentos de intervalo e de fim de expediente no trabalho. "Essas, mais de mesa", falava uma. "Aqui desse lado, Pederneiras", retrucava a outra, do outro lado da sala. Sempre, claro, a última finalizava com um sonoro "RAI AI!". E dávamos (ainda damos) risadas intermináveis... Pelo jeito, não é somente o nosso vídeo preferido, mas o de muita gente! Então, vamos rir de novo?
Em quinto lugar, o fofíssimo bebê que bamboleia como ninguém!
Na quarta posição, a senhora que manda bem no rap. Greta Segerson tá com tudo! Rimpalabiparti, a diá, diá...
Em terceiro, a menininha mais meiga e delicada, que trata tão bem seus coleguinhas na hora de brincar. Liciane Pescotapa!
A medalha de prata vai para ele, o Michael Jackson indiano, referência no mundo da música, da dança e da interpretação... GOLIMAR-MAR-MARRRRR!
No lugar mais alto do pódio, um repórter que nunca imaginou se dar mal ao tocar em inocentes uvas: Lasier Martins e seu famoso choque! Só para registrar, esse vídeo nos rendeu as melhores risadas e imitações possíveis nos nossos momentos de intervalo e de fim de expediente no trabalho. "Essas, mais de mesa", falava uma. "Aqui desse lado, Pederneiras", retrucava a outra, do outro lado da sala. Sempre, claro, a última finalizava com um sonoro "RAI AI!". E dávamos (ainda damos) risadas intermináveis... Pelo jeito, não é somente o nosso vídeo preferido, mas o de muita gente! Então, vamos rir de novo?
Assinar:
Postagens (Atom)