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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Violência gratuita

Estava guardada numa gaveta, deslocada pra lá e pra cá em mil mudanças, e eu não me lembrava. Era uma das edições da coluna do Contardo Calligaris, publicada em 4 de setembro de 2008 na Folha de São Paulo –, em que o psicanalista fala sobre ciúmes.
Pois não imaginaria, quando meti o texto na gaveta, que o assunto daquela coluna guardaria estreita relação com um episódio assombroso da minha vida, que viria a acontecer mais de um ano depois da data de publicação.

Há dois dias, recebi de uma conhecida uma mensagem de texto de um ódio pulsante, enviada por sms para meu celular. Não reproduzirei aqui as palavras chulas que qualquer mente pouco imaginativa poderá certamente representar com fidelidade. A portadora dos maus sentimentos é uma mulher traída. O namorado, ao se ver longe dela, buscou consolo nos braços de outra mulher. O meu pecado, imperdoável, foi o de ser amiga da outra, de ser intimamente ligada ao objeto da raiva da mulher traída, àquilo que desencadeou o sentimento de ameaça ao relacionamento cambaleante da traída e feriu seu amor próprio.

Incapaz de agarrar com as próprias mãos a suposta rival, a traída canalizou toda a raiva a mim - mais facilmente acessível graças à tecnologia de emails, chats e sites de relacionamentos. Foi a mesma tecnologia que estimulou o desejo incontrolável da traída de alimentar seu próprio ciúme. Segundo o namorado, foi por causa de uma invasão ao seu email pessoal que a traída descobriu o componente que faltava para justificar o ciúme. De acordo com Contardo, nem sempre o ciúme é reativo: às vezes, o ciumento inventa (ou procura) situações para alimentar seu ciúme. De posse da senha roubada do namorado, é bem provável que a traída tenha vasculhado mensagens antigas – já que o encontro com a outra ocorreu uma única vez há muitos meses passados - até encontrar algo que finalmente comprovaria sua tese desfiada dolorosamente há tempos: a de que o namorado não a ama como ela a ele e que, por isso, a trai, mente, esconde.

Ao arrombar as portas da intimidade virtual do namorado, a ciumenta também invadiu o programa de chat ligado ao e-mail, em que o rapaz me tinha entre seus contatos, e aproveitou a empreitada para lançar mais desaforos a mim. Além das palavras baixas, ameaças.

Seria um episódio lamentável e triste apenas, caso eu não estivesse grávida dos primeiros meses. Esta é uma fase em que uma grande alteração hormonal pode afetar seriamente a vida do bebê e a saúde da mãe. E eu me senti assustada e indefesa, diante de agressões gratuitas. Especialmente por, ao procurar a polícia, descobrir que estava em greve. “Só atendemos flagrantes”. Mas esse não é mesmo um caso flagrante de violência gratuita, indaguei inconsolada a mim mesma.

Em face do total descontrole da traída, de suas reações irascíveis e da falta de apoio público, procurei no texto de Contardo alguma explicação da psicanálise. “Os terapeutas psicodinâmicos notam que o ciumento é mais preocupado consigo e com seus rivais do que com o objeto de seu amor”. Logo, não há uma ética, uma conduta apropriada ou um limite capazes de frear os ímpetos destruidores do ciumento frente aos outros e até a si mesmo. Não importa à ciumenta, portanto, se o seu relacionamento torna-se escandalosamente dilacerado, se outros são atingidos, se há na história alguém mais frágil.

Ao que me parece, importa unicamente ao ciumento alimentar o próprio ciúme, e alimentando-o, nutrir também o seu desejo de vingança, principalmente, relativo ao rival ou a um terceiro, na tentativa vã de se livrar do sentimento que cultiva. Eu sou a terceira.

Mas, para além de tentar entender o comportamento violento, de tentar me proteger de alguma maneira, de me livrar do susto e do medo, senti uma tristeza, uma descrença grande demais nas pessoas, em qualquer pessoa, no amor. Como, afinal, esse sentimento pode atormentar e ultrajar tanto? Como amor e ódio podem ser assim tão entranhados? Acordei no meio da noite com pesadelos. Não pensava na ciumenta, pensava no meu filho nesse mundo de gente que comete violências gratuitas, que fere sem sentir. Chorei.

De manhã, vesti mecanicamente as roupas. Pensei no Estado que nunca está presente na vida dos cidadãos, nessa greve da polícia, no dia de trabalho pouco estimulante. Tomei café frio e evitei ligar o ipod no carro. Ao chegar ao trabalho, fui abordada pela guardete que confere os crachás de todos ao entrar. “O que é?”, perguntei com pressa e desdém. “É que você anda tão bonita ultimamente, linda. Eu tenho reparado isso e até comentei com sua colega. O que você tem de novo?”, surpreendeu-me. “Acho que é a gravidez”, respondi, me abrindo de novo em sorrisos. “Nossa, muitas felicidades, muitas felicidades!”, disse, comovida.

Sim, me lembrei. Também há no mundo as pessoas que causam pequenas felicidades assim, sem sentir. Eu espero que meu filho seja uma dessas pessoas. Que ele, ou ela, emocione mais que maltrate, faça rir mais que chorar, que se pareça mais com o pai que comigo e que, por isso, leve a vida mais leve, que saiba amar.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Simples assim

Um olhar. Uma brisa. Um sorriso.

Um pingo de chuva. Um raio de sol. Uma pequena nuvem.

Um risco. Um rabisco. Asterisco?

Aquele. O outro. Esse mesmo.

A vida. O amor. A gratidão.

Deus.

Somente. Sem mais. Tudo junto.

Pular o muro. Fugir na kombi. Mas não assaltar o caixa.

Dançar.

Dançar muito.

E esquecer. E lembrar. E fingir que não aconteceu.

E acreditar que aconteceu, mesmo não tendo acontecido.

Ou sim.

Respirar. E viver, viver muito. Ou viver pouco, mas bem.

Uma laranja. Uma banana. Ou nada disso.

A borboleta. O medo. Uma superação.

Foi-se. Vai-se. E volta.

A poesia.

A não-poesia.

Um olhar perdido. E um sorriso qualquer.

Simples assim. Ou difícil. Daquele jeito.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Bon día, Barcelona



No aeroporto lhe disseram que era fácil chegar à casa do amigo que ela nem sabia se estava à sua espera. “Basta pegar a linha 3 do metrô”. A informação veio em espanhol amável. Bom começo pra quem enfrentaria dias de catalão. Meio português, meio italiano, meio francês. “Definitivamente, língua latina”, sentenciaria dali a alguns dias. O guarda apontou com o braço esticado o caminho. Pessoas lendo as primeiras notícias da manhã, caras amassadas, fones de ouvido. Olhando para o nada, para os trilhos que não se vêem de dentro do vagão, aquela massa de gente às oito horas rumava para o trabalho. A vida segue no verão. Ela ansiava em ver a vida acontecer, em ir à praia. “Será que tenho coragem de fazer topless?”, cogitou.

O amigo se lembrava dela. Tinha se esquecido de deixar as chaves na caixa de correio. Toda viagem tem seus contratempos. Em cima da garupa da moto do anfitrião (coisa que nunca tinha pensado fazer) deixou os cabelos e o pensamento correr. Viu a Casa Batlló, parou na Sagrada Família. O moço queria logo impressioná-la. Não parava de falar da arquitetura de Gaudí, um catalão muito famoso. Só ficou mesmo na memória a cara do Cristo que a acompanhava onde fosse. Lembrou dos olhos da Mona Lisa. O Cristo encravado na entrada da igreja inacabada, com a cara pesada e grave, com a cara tão triste. E ainda nem tinha visto o outro lado da construção: a parte gótica. Sentiu calafrios.

O estômago roncava. Não achou graça nenhuma da comida francesa. Será que é por que comeu barato demais? “Se só o caro apetece, então não presta mesmo”, radicalizava. Naquela hora, até um brioche amanhecido servia. Descobriu as tapas. E a papas. Confundia toda hora. As papas vêm em tapas. Tudo vem em tapas, perceberia afinal. Tapas são porções. Papas, batatas. E como amou aquelas batatas com uma espécie de molho de alho com queijo. Dos pimentões verdes assados ainda sente o ardor. A boca enche d’água. Sim, preferiu a comida espanhola. Que os catalães não a ouçam generalizar.

Teve vontade de andar de bicicleta. Tantas bicicletas estacionadas. “Deveria me exercitar mais em Brasília”, sentiu pena. Usou o metrô. Satisfez a consciência pesada de tanta comida ao andar a pé. Seu senso de direção desusado rejeitou mapas e dirigiu-a a becos repetidos, ruas estreitas, muros de pedra, varandas abertas para o verão. Deixou-se vagabundear. Observou furtivamente transeuntes descolados, arranha céus deslocados.

No parque Guell, revisitou Gaudí. Agora, muito mais alegre. Em geral, não gostava de tanta gente reunida. Naquele dia, achou graça em tentar adivinhar o idioma falado pelo grupo ao lado. Ouviu um punhado de cantores de rua ensaiar garota de Ipanema. Percebeu um violoncelo ao longe. Passou não se sabe quanto tempo perdida entre jardins de mosaico, colunas e viadutos majestosos. Os minutos não contavam.

Teve tempo de olhar o mar do alto. Espiar os barcos. De lá de cima, imaginou os milhões de casais entrelaçados naquele instante em cada canto. Despediu-se do amigo, dos amigos do amigo. Prometeu encontros, telefonemas. Trocou endereços de e-mail. Mais um trem pela frente. Testaria seu espanhol em Madri.

Texto baseado em fotos de Monique Renne

terça-feira, 19 de maio de 2009

Movimento dos Sem Movimento















Numa tarde de quarta-feira, em abril, peguei a BR 174, saindo de Cuiabá para o interior do Mato Grosso. A viagem até meu destino tem cinco horas de duração, em média. Não fosse pelos buracos e desníveis da pista, o trajeto estava perfeito: nenhum (ou quase nenhum) caminhão na estrada e até o clima, sempre tão quente e úmido na região, ajudou, já que estava nublado e um tantinho mais fresco.

Peraí, nenhum caminhão na estrada? Até o motorista estranhou. Descendente de japonês, nascido em Marília (SP) e morador do Mato Grosso há mais de 20 anos, seu Mikió - que eu insistia, sem querer, em chamar de sr. Miyagi, o instrutor de Daniel-san no clássico Karatê Kid - era acostumado a fazer aquele percurso quase toda semana e disse não ser nada normal a falta de caminhões. De tempos em tempos, dava um sorriso alto e largo e bramava: “Estamos com sorte!”

Não era sorte; descobriríamos mais à frente, logo após passar por um posto de gasolina e ver cerca de 30 caminhões parados no pátio do posto. Logo após, também, parar em um posto na cidade de Cáceres e ouvir um zumzumzum entre brasileiros e bolivianos (Cáceres fica a 30 km da Bolívia) sobre um certo bloqueio na estrada. E logo após, finalmente, chegarmos ao tal bloqueio.

De longe, avistamos uma fila de carros e caminhões a perder de vista. Os motoristas, em pé, sentados na calçada, parados olhando para o tempo como o cara aí da foto, reunidos em grupinhos, até jogando um baralho. Uns balbuciavam reclamações, com semblante cansado ou preocupado. Outros arriscavam uma soneca, deitados em seus veículos. Mikió, devagarinho, foi ultrapassando quantos deu, já que a contramão estava livre, até que parou entre dois caminhões e resolveu descer para perguntar o que estava acontecendo.

Descobrimos o que sr. Miyagi já havia palpitado assim que vimos os veículos parados: era uma barreira do MST. Manifestantes do Movimento dos Sem-Terra bloquearam a rodovia, como parte do “abril vermelho”, em que eles fazem mobilizações e invasões no país todo para relembrar a morte de 19 integrantes do movimento, num confronto com a polícia militar, em Eldorado do Carajás (PA) há 13 anos. Os sem-terra também reinvidicavam o assentamento das famílias acampadas há mais de cinco anos às margens da pista e uma linha de crédito específica para a produção agrícola nos assentamentos.

Fiquei pensando no poderio que o MST adquiriu, à base da força, nos últimos anos. A interdição no Mato Grosso teve a presença de mais ou menos 130 manifestantes, que tinham em mãos enxadas e foices. A rodovia ficou fechada de sete da manhã às seis da tarde, com passagem liberada apenas para ambulâncias. A maioria dos carros desviou por uma estrada de terra; por isso, a barreira prejudicou principalmente aos caminhões. No fim, os prejudicados viram prejudicadores e sai todo mundo no prejuízo.

Minha sorte e de meu amigo japa seu Mikió foi que chegamos ao bloqueio às 17:30h e esperamos só meia hora para dar seguimento ao trajeto. Pior foi, aberta a rodovia, enfrentar aquele trânsito infernal e ultrapassar caminhões até chegar à cidade para onde íamos. Depois, fiquei sabendo de mais bloqueios nos dias seguintes. Na volta, pedi para viajar de noite e não correr o risco de ficar parada na estrada novamente.

O certo é que os movimentos “dos sem”, em geral, começam com uma causa nobre e acabam virando um monstrinho. Até entendo a máxima que diz “se não vai pelo amor, vai pela dor”, mas a violência e a insensatez fazem com que, no fim, alguém saia perdendo e não o contrário. O dos sem-terra é um movimento emblemático, mas dá para citar outros, como o dos sem-teto, sem-universidade e – pasmem! – dos sem fibra ótica, em Portugal. Até movimento dos sem-namorados inventaram agora. Esse, claro, nasceu como uma brincadeira, assim como o dos sem-praia.

Mas, do jeito que tá todo mundo doido, vai que eles inventam de se tornarem sérios. Vai que o dos sem-namorados resolve fazer barreiras aos restaurantes, hotéis e locais românticos em 12 de junho. Ou vai que o dos sem-praia sequestre os siris, por um pedaço de areia e mar. Hoje, quem não se filia, se arrelia. Vou me filiar ao Movimento dos Sem Movimento. Quero um movimento para mim também. Já.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Aniversário?



Envelhecer é perder certezas. Prestes a comemorar outro aniversário, questiono cada dia mais e respondo cada dia menos. Agora, em plena tensão pré-aniversário, volta e meia me pergunto quem é essa pessoa que passei a ser. Antes detestava qualquer mistura de doce com salgado e hoje corto mangas na salada. E também detestava felinos e hoje minhas duas gatas trazem os melhores momentos do dia. “Você não adorava frango?”, pergunta minha mãe atônita enquanto digo que já não como aves há três anos. E não, não...já não me importo tanto com esse arsenal de celulites, estrias e afins. E, definitivamente, sei que jamais terei seis filhos.
Então tá... chegaremos ao final da dinastia dos vinte anos e não, não sou bem-resolvida, não tenho o emprego dos meus sonhos, ainda carrego várias mágoas e continuo indiscreta e falante. Em minha defesa, posso afirmar que gosto mais de mim. Hoje tenho olhos mais benevolentes, por assim dizer. Sinto-me viva. Choro quando necessário, rio quando quero, durmo com as luzes acesas, ando descalça, como porcaria, ultrapasso o limite da bebida e dirijo cantando. Lembra da música do Caetano? Nine out of ten movie stars make me cry. I'm alive.” Viva, muito viva. Que venham os anos.


Quem quiser curtir a música do Caetano, segue o video.


sexta-feira, 8 de maio de 2009

E o troféu vai para...

Que rufem os tambores! Eis o Top 5 Bananas e Laranjas dos vídeos mais engraçados dos últimos tempos. Agradecemos a participação, por comentário e e-mail, dos amigos, colegas, conhecidos e desconhecidos na votação. E a ordem é essa:

Em quinto lugar, o fofíssimo bebê que bamboleia como ninguém!

Na quarta posição, a senhora que manda bem no rap. Greta Segerson tá com tudo! Rimpalabiparti, a diá, diá...

Em terceiro, a menininha mais meiga e delicada, que trata tão bem seus coleguinhas na hora de brincar. Liciane Pescotapa!

A medalha de prata vai para ele, o Michael Jackson indiano, referência no mundo da música, da dança e da interpretação... GOLIMAR-MAR-MARRRRR!

No lugar mais alto do pódio, um repórter que nunca imaginou se dar mal ao tocar em inocentes uvas: Lasier Martins e seu famoso choque! Só para registrar, esse vídeo nos rendeu as melhores risadas e imitações possíveis nos nossos momentos de intervalo e de fim de expediente no trabalho. "Essas, mais de mesa", falava uma. "Aqui desse lado, Pederneiras", retrucava a outra, do outro lado da sala. Sempre, claro, a última finalizava com um sonoro "RAI AI!". E dávamos (ainda damos) risadas intermináveis... Pelo jeito, não é somente o nosso vídeo preferido, mas o de muita gente! Então, vamos rir de novo?

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Is this real life?



Sim, caro leitor, esta é a vida real. Levantar cedo, trabalhar, ficar preso no trânsito, chegar em casa depois de o sol se por. Fazer tudo de novo no dia seguinte e ainda ter que ser inteligente, bonito, antenado.

O tempo anda escasso. A vida, corrida. Não há uma solução para os seus problemas que NÃO acabaram!!! Mas há os vídeos idiotas. Graças ao youtube. Santa tecnologia digital.

A gente preparou uma lista deles. Pentelhamos os amigos, vasculhamos os vídeos nos perfis do orkut, ligamos pra geral e relembramos os nossos velhos (velhos?) clássicos. Escolhemos alguns vídeos engraçados, toscos, impressionantemente ridículos. Queremos eleger os top 5! Confesse logo, qual o seu preferido? Deixe um comentário com o nome do seu favorito e a gente revela os mais votados daqui a uma semana.

Claro, o menino dopado do Is this real life é hors concours e não participa da votação: uma covardia concorrer com qualquer outro.

Lasier Martins toma choque – Um repórter, uns cachos de uva. O que poderia dar errado?

Liciane Pescotapa – Crianças felizes cantam “Batatinha frita”, até que...

Golimarrrrr – Quem gosta de Thriller? Os indianos sim. Até fizeram uma versão melhor.

Greta Segerson – A melhor rapper de todos os tempos.

Long Johnson – Que será que houve na vida desse gato para ele se lamentar tanto?

Amazing Fart – Quando pensamos que já vimos de tudo...

Bebê Bambolê – Por favor, alguém avisa pra ele!

Corrida de mulas – Da próxima vez, olhe para a mula.

Os cinco vídeos escolhidos por vocês serão postados no blog, para a gente ver e rever e rever e rever...

* Atualização do post em 28/04/09: Retiramos dois vídeos, o "Dá carrim não, Ma" e "The Landlord" porque os links do Youtube não estavam funcionando. Continuem votando, minha gente!!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A Viagem do Elefante



Tenho um amigo que fica me repetindo, e cantando, um verso de música do Little Joy. “Saiba, o caminho é o fim mais que chegar”. The next time around (esse é o nome da tal música) só tem um pedacinho em português, cantado pela moça da banda, uma anglófona. Acho que meu amigo acha charmoso ela cantar com sotaque. E a idéia do versinho é mesmo boa e tem a ver com o último livro que li.

Também o caminho é que importa na história contada em A Viagem do Elefante. Foi lendo o mais recente livro de José Saramago que comecei a cumprir a primeira (e única) promessa que fiz aqui no blog. No post inicial, revelei como primeiro me encantei com a obra do português e me comprometi a escarafunchar o que ele tinha pra contar. Comecei pelo fim: seu último livro publicado.

Uma leitura que daria pra terminar nuns dois dias. São mais ou menos duzentas páginas em letras grandes. Eu levei quase um mês. Só lia quando estava em viagem pra entrar no clima (uma maluquice que tenho de combinar as experiências da vida concreta e de outra, imaginada). Outro motivo: no fim das contas, não queria me despedir do Salomão.

Ele não é a personagem principal, não fala nadinha na história inteira, mas foi com ele que muitas vezes me identifiquei. Salomão é o elefante. Nascido na Índia, tornou-se propriedade do rei português D. João III e virou presente deste para o primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V. A viagem é o longo caminho, durante o século XVI, que o elefante faz de Lisboa a Viena. Uma caminhada que aconteceu de verdade naquela época, mesclada com passagens inventadas, ironia, sarcasmo e humor de Saramago.

No trajeto, estradas e situações pedregosas, frio, gente com toda a sorte de características humanas comuns há tantos séculos quanto hoje, além do futuro incerto de Salomão e seu tratador, Subhro (a personagem principal). Saramago destrincha com perfeição as emoções de um e de outro, as vontades, as mesquinharias, os momentos de lucidez e de sonho, de companheirismo e generosidade. Salomão não precisa dizer, mas sabemos o que ele sente, o que pensa.

O narrador, onisciente, vai até a história e se distancia dela em movimentos perfeitamente envolventes para o leitor. Acompanhar a caravana que leva Salomão por despenhadeiros em meio ao gelo cortante e saber as opiniões do narrador sobre cinema (que sequer tinha sido inventado), sobre um filme feito centenas de anos depois da história contada, acerca de um episódio passado antes da travessia de Salomão, não guarda incoerências.

Ou conhecer a opinião do narrador, que, em muitas passagens, diz achar a escrita incapaz de relatar com precisão fatos que devem ser completados com a imaginação do leitor, ou com a invenção de quem conta a história. As impressões do narrador, que hora parecem vir da cabeça do cuidador do elefante ou de alguma personagem coadjuvante, só tornam essa viagem cada vez mais insólita e, de novo, envolvente.

É o caminho, muito mais que o destino, que interessa. Fico me perguntando por que rumos andou Salomão depois de chegar em Áustria.

Livro: SARAMAGO, José. Viagem do elefante (a). Sao paulo: Companhia das Letras, 2008. 260 p.
Compre o livro

Dá uma olhada na música do Little Joy:


Lyrics | Little Joy lyrics - The Next Time Around lyrics

sexta-feira, 20 de março de 2009

Entre a ironia e a indiferença

Achei o livro jogado em um armário do trabalho. Me interessei porque era um livro de mangá e o prefácio trazia instruções sobre o manuseio da obra. Como se tratavam de desenhos, não foi possível inverter a ordem da escrita oriental que, ao contrário da nossa, se faz da direita para a esquerda. Coisa esquisita, como se vê. Peguei o livro e parecia que estava lendo de trás para frente. O estranhamento passou rápido. A leitura foi tão boa que quando vi estava lendo da direita para a esquerda como se tivesse nascido no Japão.

A obra conta a história verídica de um escritor japonês que foi preso em 1994 por porte ilegal de armas. O sujeito tinha mania de fazer tiro ao alvo em latinhas no quintal de casa. Minha primeira surpresa foi essa então. Porte ilegal de armas, ainda que a pessoa seja réu primário, tenha residência fixa, passado ilibado, família, periquito e papagaio, dá cadeia no Japão. O camarada pegou três anos. E todo o livro conta a rotina do tal escritor nesse período de reclusão. Tudo minimamente desenhado a bico de pena, com impressões, detalhes, ruídos e todo um cenário que se transporta para a realidade do leitor.

Foi assim que Na Prisão, de Kaizuchi Hanawa, surpreendentemente adentrou a lista dos melhores livros que já li. O bom do relato é que não existe sofrimento nem juízo de valor. A simples rotina da cadeia, o acordar, o amanhecer, a passagem dos feriados e principalmente a comida. Como cada detalhe é esmiuçado, aos poucos fui entendendo e me incorporando da rotina descrita por ele. O casaco que segura o frio no inverno japonês, o banho de quinze minutos feito a cada dois dias, as cuecas com barbante de amarrar e todo um cotidiano, um cenário claro, nítido.

Muito diferente do que temos aqui, a cadeia é bem organizada e o escritor dividiu a cela com outros quatro presos, todos minuciosamente descritos. Em algumas ocasiões, Hanawa chega inclusive a agradecer por ser tão bem tratado apesar de ser um "criminoso". O sistema é rígido a ponto de os detentos precisarem chamar o carcereiro e pedir por favor para apanhar um lápis que caiu. Existem as posturas permitidas e as não permitidas. É proibido, por exemplo, deitar antes do horário de dormir. O melhor de tudo, reafirmo, é a postura do narrador, que fica entre o irônico e o indiferente. Recomendadíssimo.

Crédito
Hanawa, Kaizuichi.
Na Prisão/ Kazuichi Hanawa;(tradução Drik Sada).
São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2005.

Título Original: Keimusho no naga.
ISBN 85-7616-129-X

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Eu e Marley

Confesso, não sou fã de cachorros. Gosto de observá-los, acariciá-los de vez em quando e só. Acho que é porque os cachorros são muito dependentes de nós, precisam estar junto, perto, rodeando, pulando em cima e encostando seus focinhos úmidos e gelados em nossas peles. Não gosto muito. Dizem que é porque eu nunca tive um bichinho de estimação; e é verdade.

Tampouco sou fã de filmes ou livros sobre cachorros. Lassie, Rin Tin Tin e Benji nunca foram meus favoritos.

Mas um me chamou a atenção: Marley. Talvez por ter exisitido de verdade e não ter sido um super-cão-herói fictício. Na verdade, o Marley é quase um exemplo de anti-herói: estabanado, trapalhão, destruidor, neurótico. Não fosse pelo sentimento que despertou em seus donos - um amor incondicional.

Não foi o filme que me cativou. Uma comédia comum com atores medianos - Owen Wilson e Jennifer Aniston - não conseguiu expressar a grandeza da experiência de John Grogan e sua família ao conviver com o labrador amarelo inconveniente, o cão da liquidação. Grogan, o jornalista, fez bem ao explicitar sua história em um livro. Rica em detalhes, a obra Marley & Eu é envolvente até para quem não gosta tanto dos cãezinhos.

Passeios na praia, sessões de adestramento, dias de chuva e trovão são situações comuns para qualquer bichinho; não para Marley. Ou para ele sim, mas não para os que estavam ao redor. Já me disseram "chorei demais ao ler o livro" ou "é triste" ou "é emocionante". Mas eu nunca ri tanto com uma história sobre um animal de estimação. John Grogan, deve ter sido difícil, hein.

Vendo aquela cara amarela, cabeça ligeiramente inclinada e olhar de quem diz "o que tá acontecendo?" do Marley na capa do livro, me peguei pensando sobre os bichinhos que as pessoas criam (excluindo o bicho de pé). Talvez, lá no fundo, bem no fundo, começo a entender porque se apegam tanto ao estimados cachorros, gatos, papagaios e iguanas.

- Letícia, agora você topa ter um bichinho?
- Eu? Eu não.

Bibliografia: GROGAN, John. Marley e Eu: A Vida e o Amor ao Lado do Pior Cão do Mundo. Editora Prestígio, 2006.

Página do filme, com trailer e sinopse.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A vida parou ou foi a bicicleta?


O belemense das palafitas anda de bicicleta. Guamá, Jurunas, Terra Firme: a periferia carrega tudo de bicicleta. A namorada vai na garupa, os sacos de farinha d’água, o gás pro almoço e pra janta, açaí da ilha pra comer com peixe no café da manhã. A cerpa de qualquer hora e a sinuca no boteco da esquina chegam mais rápido de bicicleta.

Ninguém sabe se ela leva o ciclista ou se o ciclista tem vida própria. Ela pára no meio da rua sem calçadas, sem esgoto, cheia de água parada. Ela não se incomoda com o lixo amontoado, liga o mute pras buzinas dos carros de outras bandas, desfila acompanhada. Ela leva o menino barrigudinho e o cachorro magro pra brincar no campo de futebol imaginado. Ela carrega a mãe pro ponto de ônibus alagado e a menina pra namorar detrás da casa abandonada. Ela não é vaidosa, anda enferrujada, descascada, sem marca e cheia de marcas. De bicicleta, a vida no bairro-cheiro-de-chorume passa e só a gente pública de Belém não quer ver.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Espiral de Preguiça


Sábado de mudança. Tarde de domingo pós mudança. A mulher está jogada no sofá. A gata pede comida. A mulher não levanta do sofá. A segunda gata pede comida.

A mulher levanta do sofá e vai colocar comida para as gatas. O saco é pesado e cai muita ração no prato. A mulher sabe que quando há muita ração as gatas passam mal. Ainda assim, vira as costas e volta ao sofá.

A primeira gata chega e vomita o excesso de ração. A mulher precisa levantar e limpar. Ela não vai. A segunda gata cheira o vômito da primeira. A mulher não levanta. A segunda gata come o vômito. O piso fica limpo. Tudo resolvido.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Síndrome de Dorothy

"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar a lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver... Il faut aller voir - é preciso ir ver! É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo." - Amyr Klink

A parte que eu mais gosto das palavras do navegador é a que fala sobre sentir a distância para estar bem sobre o próprio teto. Por mais curta que seja a distância, por pior que seja o teto.

Viajar é bom. Conhecer o desconhecido, reviver o conhecido; os mesmos lugares nunca são os mesmos, os outros lugares sempre têm um quê de mistério. É difícil não voltar saudosa de uma viagem. Saudosa do mundão que foi explorado e também do mundinho particular.

A nossa casa é em todo lugar, mas não há lugar como nosso lar.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Como reforçar paradigmas


Aprendi com uma amiga que é no cotidiano que se constroem e se rompem preconceitos. Aquela piadinha racista que é contada dentro de casa, com o aval dos pais e tios, é um veneno que vai se entranhando indelevelmente na vida das pessoas. Declarar mesmo: sou racista sim e daí? ninguém declara. Mas sorrir de uma piadinha inofensiva, que mal tem?
Ora, meus caros amigos, não é preciso ser lingüista para atestar o poder persuasivo de uma declaração permeada de humor. Em nome de uma boa piada, vale tudo.
Um dos mais antigos tratados sobre retórica, o clássico “Como vencer um discurso sem precisar ter razão', do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, já citava o uso do humor como um dos mais poderosos recursos da retórica moderna.
Pois bem. Falemos então daquele objeto de entretenimento inofensivo, a televisão. Alguns chamam até de eletrodoméstico. É coisa muito semelhante ao liquidificador. Batem-se conceitos antigos, roupas da moda, estereótipos à vontade e o que temos? Acertou quem disse novela das oito, Rede Globo.
Mocinhas loiras de olhos azuis – para reforçar o padrão colonizado de beleza – homens cujo maior mérito é o simples carregar do falo e gays que se salvam no final da novela e retornam às sendas do bem e do amor heterossexual. Falta mais alguma coisa? claro que sim. A esposa infiel que é duramente castigada por Deus e os negros que resolvem deixar a vida de luxo e retornar aos seus devidos lugares em subempregos, apesar da formação impecável.
Fica então uma sugestão ao sr. João Emanuel Carneiro, autor de A favorita. A novela já bateu os recordes de audiência e essa é a última semana, então surpreenda-nos. As metas já foram atingidas, então porque manter a mediocridade de conceitos?
Seguem sugestões para o final dos personagens.

Halley: casa-se com Orlandinho e vive feliz.
Lara: ganha a vida como cover da Xuxa em festas infantis.
Donatela: casa-se com César Augusto, afinal os dois são românticos, caipiras e sequelados.
Zé Bob: Responde ao correio sentimental do jornal de Triunfo.
Maria do Céu: administra, junto com dona Sirlene e suas meninas, um prostíbulo de homens.
Silveirinha: substitui Heath Ledger e encarna o Curinga na próxima versão de Batman.
Tarcísio Meira: Volta para os Thundercats como Mumm-Rá, o de vida eterna.
Elias: é eleito prefeito mais popular do país depois de implementar uma política pública de resgate da auto-estima feminina.
Dedina: não morre e dá aulas de pompoarismo nos cursos patrocinados por Elias.
Damião: fica brocha.
Leonardo: se torna pastor da igreja universal.
Catarina: casa-se com Stela,a amiga gente fina.
Romildo Rosa: torna-se assessor do ACM Neto.
Alicia Rosa: ganha rios de dinheiro como garota-propaganda de escova progressiva e se casa com Cassiano.
Flora: encontra, na cadeia, o amor de sua vida, o banqueiro Salvatore Alberto Cacciola, aquele proprietário do falido Banco Marka, condenado por crimes contra o sistema financeiro no Brasil, foragido na Itália após seu banco ter recebido uma ajuda financeira do Banco Central do Brasil para cobrir prejuízos com operações de câmbio. Gente fina igual ela...

E por aí vai. Posso até escutar os tambores retumbantes e a voz do Silvio Santos: Vamos abrir as portas da esperança...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Spend your time on me



No apagar das velinhas do ano velho, 2008 teve tempo de me reservar uma deliciosa descoberta. Já tinha ouvido em algum lugar sem dar a mínima bola, mas quando prestei atenção, meus ouvidos não quiseram parar de ouvir Duffy. A moça - só tem 24 anos - ficou conhecida com o single Mercy, que viciou olhos e ouvidos outros mundo afora e colocou a cantora do País de Gales nos topos das paradas em vários países.

Dizem que a fama toda de Duffy tem a ver com o bom momento do mercado soul-pop-retrô, em que a esquelética-junk Amy Winehouse é a representante mais famosa. Pode ser mesmo que o estilo das duas tenha a ver: voz forte, aveludada, às vezes suave, e, definitivamente, retrô. Mas a comparação entre elas não foi a primeira impressão que me veio à cabeça ao ouvir a galesa.

Culpado pela minha descoberta, o youtube me mostrou imagem e música, e eu vi figurino à la Jackie Kennedy, loirice e bocão de Marilyn Monroe e voz de Duffy mesmo. O resultado que me chegou foi uma mistura de referências femeninas batidas e ainda traços bem originais. Gostei.

Rockeferry é a canção que dá nome ao álbum de estréia e de cara dá a impressão de que esse é um disco melancólico, em que soul e pop bem casados embalam confissões de fossa como essa aqui: “I’m moving to Rockferry tomorrow / And i’ll build my house, baby, with Sorrow”.

É isso mesmo e ainda mais. O hit Mercy é pra cair na pista, mesmo que o tema ainda seja um coração partido. Duffy vai fundo nos desencontros. A minha música preferida é Syrup and Honey. Beeem retrô, parece um blues de diva consagrada na voz anasalada de Duffy. Dá uma olhada na primeira parte:

Don't you be wasting all your money
On syrup and honey
Because I'm sweet enough
Don't you be using every minute
On making a living
Because we've got our love
Listen to me, 1, 2, 3...
Baby, baby, baby spend your time on me...

Mais sobre Duffy

Nascida em Nefyn, no País de Gales, em 23 de junho de 1984, Aimee Anne Duffy prefere ser chamada pelo sobrenome para evitar comparações com a turbulenta cantora inglesa. Não evitou. O álbum de estréia, Rockeferry, lançado em março de 2008 não é bem um debut, já que reúne os singles lançados antes. O trabalho ganhou edição DELUXE em novembro do ano passado, com mais sete canções de bônus. De novo, algumas delas já eram conhecidas como singles. Pra ouvir tudo que a moça decidiu gravar é só baixar/comprar essa edição.

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