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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Amarrada, eu??


Tinha os dentes de cima bons, bonitos. Os de baixo eram tortinhos, mas nunca liguei. Achava que essa lógica euclidiana e dodecassílaba valia lá para os parnasianos, não para dentes. Aqui, onde triturava os alimentos, onde mascava pedaços de coisas, salivava e babava, lambia doces, feridas e pessoas... aqui na boca - pensava eu com meus botões - é bem mais honesto que exista uma desordem aparente, ainda que pequena.

De mais a mais, gostava dos tortinhos, da marca da mordida nos copos de plástico e maçãs. Achava que era inconfundível. Um belo de um dia, surge uma dor de cabeça. Os dentistas já haviam avisado que o aparelho era necessário, que podia acarretar enxaquecas, que havia lá um desvio na mandíbula, etc. Resolvi consultar o dentista que, logicamente, culpou a mordida pelas dores de cabeça e traçou um método para corrigir a mordedura. Tudo muito calculado. Fotos, radiografias, moldes. Dois anos de tratamento. Dois anos?? – perguntei atônita. Dois anos ou o resto da vida com enxaqueca – foi a resposta, das mais cínicas, como se vê.

Isso foi há um ano e quatro meses. Faltam oito, portanto. Não há um só dia em que eu não pense no assunto. Seja pelos lábios grudados no ferro do aparelho quando acordo ou pelas babadas incontroláveis que solto quando converso. Fato é que o danado do aparelho não me dá sossego, permeia meu cotidiano, sempre indelicado e incômodo. É a vergonha de sorrir, a necessidade de explicar, a preocupação com a limpeza, a dor quando me bato sem querer, a dificuldade de morder, a saudade do sorriso nas fotos e mais um tanto de coisinhas.

Hoje tive um insight. É um casamento. É um casamento! Isso de conviver tão entrelaçadamente, de me sentir tão exposta e vulnerável, isso é como um casamento. Estou seguindo – assim como quando me casei – as recomendações da sociedade. Fazendo tudo certinho para alcançar um bem maior ali adiante. Isso ou o resto da vida com enxaqueca, certo? Aquilo ou o resto da vida com a dúvida, com o receio de não ter tentado, sozinha num apartamento com 15 gatos, três cachorros e um papagaio, certo? Sei não, heim... os que já tiraram o aparelho sempre dizem que, extraídas as porções de ferro, a sensação é de nudez, de vazio. “Você vai sentir até falta” – já me disseram também. Seguindo a lógica do insight, deve fazer falta mesmo, especialmente num primeiro momento. Mas olha, minha gente...ninguém tira da minha cabeça que minha vida será melhor sem o aparelho. ;)

P.S: Não convém digitar “aparelho” e “boca” na pesquisa de imagens do Google.

2 comentários:

Clarinha disse...

Hahahah, adorei o PS.

Esse texto me fez lembrar....meu casamento.
Hahahah! Além do casamento, lembrei de uma entrevista que o Contardo Caligaris deu à revista Trip dizendo que, baseado na experiência de consultório dele - atendendo famílias e adolescentes por muitos anos -, ele percebeu que os pais estavam muito mais preocupados com a vida futura dos filhos do que com o presente. E que ele passou a convidar os pais a refletir sobre o que eles pensariam da vida dos filhos caso esses morressem naquele instante!

Duro o exercício, mas a ideia é que os pais pensassem se os filhos estariam tendo uma vida interessante, prazerosa. Será que pensar só no que vamos ser/ter/conseguir no futuro é o suficiente? Será que a vida agora também não importa?

Ana Guimarães disse...

Linda... agora que fui ver seu comentário. Engraçado, Marie, tenho sempre essa impressão de que você exercita a autocrítica. Isso é coisa de gente grande, né? não é pra dente de leite não. Com relação a pensar no futuro, eu não sei. Esses dias vi uma matéria no Globo Repórter sobre uma senhora, faxineira, que tinha passado a vida inteira, inteirinha, trabalhando incessantemente, de sol a sol, e que comprou um puta apartamento, na beira da praia, maior que uma casa, coisa de cinema. Pois bem... fiquei pensando: e agora? vai usufruir desse apartamento durante quantos anos? gastou o corpo, a saúde, os dias, o tempo, a vida. Mas sei lá, né? talvez essa satisfação de olhar para a praia, num puta apartamento, nos anos finais da vida...ela venceu.