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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Velho dilema

Quando eu era criança e adolescente, passava minhas férias nas casas dos avós, em São Luís do Maranhão. Na rua onde eles moravam, havia muitos meninos e meninas da minha idade. Resultado: viramos todos muito amigos.

Eu adorava ir pra lá e chegava a passar quase dois meses, nas minhas férias escolares. Passava o dia inteiro na rua, brincando descalça, correndo, pulando “cancão” (amarelinha, em maranhês), subindo nos pés de manga, goiaba e jambo. Voltava, suada, de tardinha para “merendar”. A mesa posta pela vovó tinha guaraná Jesus e biscoitinhos de polvilho. Às vezes, tapioca com manteiga. Daí, voltava pra rua e ia jogar um vôlei improvisado, com rede e tudo. Juntava uma galera vinda de quase todo o bairro, pra gente disputar campeonato.

Não cansada, à noite, depois da janta e do banho frio no quintal, voltava para a porta de casa, onde a molecada se reunia de novo pra jogar baralho ou qualquer outra brincadeira mais tranquila. E ia dormir feliz. A férias passavam assim, dia após dia, semana após semana, regada de diversão – isso sem contar os dias de praia – naquela ilha maravilhosa. Até que chegava a hora de ir embora.

Até aqui, parece que estou escrevendo uma redação da 5ª série, entitulada “Minhas Férias”. É verdade, admito. Mas estou contando isso para contextualizar o que vou dizer agora.

Depois de dois meses de alegria, chegava a hora de dizer “até para o ano” (que é o mesmo que “até ano que vem”) para os meus amigos e minha família. Começava aquele sentimento doloroso que era a saudade. Doía muito mesmo e tenho essa lembrança desde os tempos mais infantis. Chegava a Brasília e passava não menos que uma semana chorando todo dia, de saudade. Um mês e o coraçãozinho ainda apertava quando lembrava de toda aquela gente que me proporcionava tanta alegria. Até que ia passando e passando. A rotina voltava. Mas, no fim do ano, começava tudo de novo!

O que eu quero dizer é que era muito bom e muito ruim ao mesmo tempo. Se apartar de quem a gente gosta é difícil. Às vezes eu tinha vontade de não ir, só de saber o quanto seria ruim voltar. Até que um dia, pensei: só é ruim depois, porque foi muito bom antes, então, o que vale mais a pena? Eu prefiro passar pela saudade a nunca ter vivido aqueles momentos tão legais.

Depois de adulta, a coisa não mudou. Agora, mais do que eu ir embora, vejo meus amigos indo embora. Cada um pra um lugar, cada um com um motivo diferente, principalmente pelo trabalho. Mudam de cidade, de país. Continuo tendo amigos no Maranhão e tenho alguns que, de Brasília, foram para o Rio de Janeiro, Acre, Estados Unidos, Irlanda... por aí vai. Todos que, um dia, estiveram comigo por um bom tempo e aí foram fazer algo diferente na vida.

A internet facilitou as coisas, é verdade. No tempo dos amigos de São Luís, a gente se correspondia por carta e falava por telefone só de vez em quando, porque a ligação era cara. Hoje, tem MSN, Skype, Facebook, Orkut, Twitter etc. A gente sempre fica em contato. Mas não deixa de ser saudoso ter a pessoa por perto, ali, de verdade.

Por fim, estou falando tudo isso para dizer que estou às voltas com esse sentimento de novo. Minha amiga Clarinha – uma das três blogueiras deste espacinho frutífero aqui – é a “indo embora” da vez. A Indonésia a chama; a ela, ao Pedro e ao bebê João. Mais do que uma colega de trabalho, na vida real, ela virou minha amiga. Daquelas com quem a gente compartilha segredos e detalhes dos acontecimentos. Trabalhar lado-a-lado (mesmo!) por três anos foi o responsável por isso; era com ela que eu passava a maior parte do meu dia, somando oito horas de trabalho, duas de almoço, mais umas quatro de cursinhos à noite eventualmente, idas ao cinema ou à lojinha das empadas da 203 norte.

Isso tudo vai fazer falta, mas não supera a felicidade por vê-la tão bem, com uma família tão agraciada e tendo experiências incríveis. E nem por saber que o blog vai bombar com notícias sobre a Indonésia (assim espero). Por aqui, fico com meu velho dilema: só é ruim agora (a saudade) porque foi muito legal antes. ;)

2 comentários:

Aline Espíndola e Fabiana Carvalho disse...

O tema saudade sempre me faz apertar o coração. Eis minha dificuldade de falar sobre isto. Mas se a sentimos, é porque algo de significativo vivemos. A Maria Clara faz falta mesmo! Mas como disse, a felicidade que ela está agora é o que ameniza este sentimento que nos deixa. (Fabiana)

Clarinha disse...

Ah, gente, que bonito! Tô emocionada, heheh!
A vida é uma sucessão de encontros e desencontros, né. O melhor é quando os encontros dão certo :)