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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Desacelerando

Nesse post de volta ao blog, quero falar justamente sobre o que me afastou um pouco dele nos últimos meses. Estou em processo de desaceleração.

Essa rotina agitada do mundo atual me faz ter inveja de quem viveu no século 19. De certa maneira, claro. Acordar com o galo cantando, mas dormir com o pôr-do-sol devia ser bom. No século 21, acorda-se muito cedo também, para enfrentar apenas 25 km e não 30 km de engarrafamento na ida para o trabalho. Mas dorme-se tarde, muito tarde.

Depois de passar mais de 10 horas fora de casa durante o dia, por causa do trabalho, a noite é o único momento para várias outras tarefas. Fazer compras no supermercado lotado. Comprar pão – nada fresquinho – para comer na manhã seguinte (afinal, não quero perder minutinhos preciosos do meu curto sono para ir à padaria com o raiar do sol). Lavar a louça do fim de semana que acumulou. Tem um cursinho para concurso que dizem ser ótimo: soca na parte noturna da agenda. Academia, idem. E o encontro com as amigas? Se der um tempinho, a gente vai. Sem contar que sempre tem um programa “imperdível” na TV tarde da noite.

Aí, a gente dorme sem sonhar, ou sem lembrar que sonhou. Porque o sonho, dizem os especialistas, vêm na fase REM do sono. E essa fase vem no sono profundo. Não sei quanto a vocês, mas eu não consigo alcançar fácil esse estágio com tão poucas horas de cabeça no travesseiro.

No século 19, as pessoas usavam cavalos ou carroças para se locomover. No século 21, nossos possantes rasgam as avenidas da cidade, cortam caminhos a acham atalhos para chegar logo ao destino. Estamos sempre atrasados. O transporte por cavalinhos de outros tempos devia ser bem devagar... Mas a sociedade da época tinha pressa de quê, afinal?

Os homens, de começar e terminar logo seus ofícios? De encontrar os amigos no passeio público?

As mulheres, de cuidar da casa e dos filhos? De delinear bem os cachos de seus cabelos e aprender aquele bordado difícil?

(Ressalva: exclua-se do teor do texto a discussão sobre machismo e feminismo, porque aí é pano para outra manga)

Mas e hoje, temos pressa de quê? E por quê?

Porque estamos em “tempo real” o tempo todo.
Porque temos que ser os primeiros em tudo.
Porque não queremos ser os últimos a saber dos assuntos em voga.
Porque a crise financeira mundial afeta a todos.
Porque ter uma graduação não basta.
Porque precisamos gerenciar dez atividades simultâneas.
Porque, além de tudo, temos que cuidar da nossa espiritualidade, da saúde, dos relacionamentos, dos nossos bichos de estimação (na verdade, seus, já que eu não tenho), praticar boas ações, nos divertir e fazer café, tudo ao mesmo tempo. Ou um seguido do outro; ah, mas tem que estar anotado na agenda, senão, a gente esquece. Esquece até de olhar a agenda.

Chegou a minha hora de pisar no freio.

Quero fazer tudo mais devagar. Comer devagar. Andar devagar. Escrever devagar. Respirar mais fundo. Fazer menos coisas. Passar mais tempo com o meu marido e minhas amigas. Trabalhar só até onde eu consigo e tirar da cabeça que eu sempre consigo fazer um pouco mais. Não quero ser super-heroína, nem mulher-canivete (de múltiplas funções!). Quero ser tranquila. Quero que o tempo volte a passar mais devagar.

Tedioso? Pode ser. Impossível? Talvez, ainda mais nessa profissão ingrata. Mas, garanto que não sou a única que pensa assim. Aliás, ao redor do mundo, várias pessoas estão a fim de desacelerar, como eu. Os índices de Felicidade Interna Bruta (FIB) estão sendo mesmo levados em conta.

Vamos ver se consigo.

6 comentários:

Clarinha disse...

É isso mesmo. Eu também quero. Saudades de passar mais tempo com vc :)

Letícia disse...

Eu tb, Clarinha! Saudades de passar o dia todo com vc, como antes. ;)

Anônimo disse...

É, vamos ver se VOCÊ consegue... Em um mundo tão corrido e cheio de possibilidades, talvez a teoria da moda se aplique à vida também. Quem sabe "querer menos, seja mais!", não é mesmo?! "Why be so serious?"... Hihi.. Bjo!

Marco Aurélio [Locomotiva Produções] disse...

Mto bom Letícia!
Moro numa cidadezinha do interior de MG e que vive no meio-termo entre a correria de uma cidade média e a calmaria do século 19... E isso às vezes não é bom, pq qdo vc está num ritmo desacelerado vem alguém te empurrando, ou então acabamos empurrando os outros... Mas assim é a vida! Uma gangorra ou uma montanha-russa, onde só a gente mesmo finge ignorar nossos limites e arrisca ao passar por cima deles... Uma hora temos que desacelerar e focar a qualidade de vida e administrar melhor nosso tempo.
Abração!

Natália disse...

Mto bom o seu texto! Me identifiquei nele... Acho que estou na fase mais acelerada da minha vida, pelo menos mentalmente. Estou formando e tomar as decisões sobre o futuro profissional é particularmente difícil. Leva-se em conta de tudo, inclusive se vc terá qualidade de vida ou não. E, mtas vez, a resposta é "não" no início da carreira. Mas, pretendo tomar atitudes que me desacelerem durante esse período, com ir no cinema com as amigas ou sentar um pouco em algum lugar e olhar pro nada, por alguns minutos...
Abraço!

Letícia disse...

Marco, é verdade. O segredo, creio eu, é aliar crescimento na vida a qualidade de vida, na medida certa. O que pode ser bem difícil de fazer!

Natália, o começo da carreira profissional é muito complicado mesmo, na maioria das vezes é necessário abrir mão de um tantão de coisas. Mas depois piora... hehehe. Tô brincando, acho que se vc já começar com essas pequenas boas atitudes, vai levar numa boa sim!

Gente, o importante é ser feliz, no fim das contas!
Beijos a todos e obrigada pelos coments!