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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Contadora de histórias (I): O furto

Há dias em que acordo com vontade de ser igual ao Forrest Gump: contar histórias ou sair correndo. Hoje, resolvi contar histórias.

Um dia, minha bolsa foi roubada. Tinha tudo lá dentro; e até mais um pouco. Desde o óbvio e indispensável, como carteira, documentos e chaves, até o supérfluo, como guarda-chuva, iPod, agenda e óculos de sol.

O meliante fugiu bem rápido. Debaixo de chuva, seus pés calçados em chinelos desgastados pisavam – um tanto trôpegos dada a adrenalina do momento – nas poças de água e lama formadas pelo temporal que caía na noite de uma quarta-feira qualquer, em uma quadra qualquer do plano piloto. Dois rapazes prestativos ainda tentaram correr atrás dele. Em vão.

Enquanto isso, eu, cheia de sacolas de compras nas duas mãos (aliás, até hoje tento imaginar como o malandrinho conseguiu arrancar a bolsa de meus ombros e passá-la por minhas mãos grudadas firmemente aos sete ou oito sacos plásticos cheios de enlatados e congelados, um tanto pesados, sem derrubar tudo. Acho que ele era mágico.)... O que eu dizia? “Dizia eu que a aritmética...” Não, não, dizia eu que fiquei ali parada, enquanto os rapazes corriam atrás do pivete (sim, era um menino, um adolescente franzino), ainda com as sacolas nas mãos, um tanto pasma, meio sem entender o que havia ocorrido.

Ainda com essa sensação, pensei no que fazer. “O que as pessoas fazem nesse caso?” Gritei um pouco – não é isso que se faz? – Pega ladrão! Socorro! Coisas do tipo. Ah, sim, não pense que foi efeito retardado; esse pensamento-e-ato se passou no segundo seguinte ao do ocorrido. Não se admire com minha reação; em 27 anos de existência, nunca havia sido roubada. Furtada, aliás, como disse o delegado que fez o “bê ó”. Furtada, na condição de transeunte, para ser mais exata na transcrição das palavras dele.

Tudo o que se passou depois, não vou detalhar tanto. O boletim de ocorrência, registrei. O celular e os cartões, bloqueei. A fechadura de casa, troquei. Os documentos, achei (parece que o furtador não se interessou pela minha carteira de motorista, minhas carteirinhas de estudante e do clube, nem meus cupons promocionais de restaurantes e largou tudo isso no meio do caminho). Enfim, ficou tudo bem.

Mas, me ficou um vaziozinho, uma pontinha de não-sei-quê. Não sabia o que era. O susto já tinha passado. Eu estava intacta. Meus documentos e cartões, protegidos. Ok, pensei na ineficácia do Estado sim, na falta de segurança, no crescimento da violência urbana, na oportunidade de educação que o coitado do garoto talvez não tivesse tido.

Dias depois, entendi o que eu sentia. Era saudade. Das pequenas coisas que faziam parte do meu cotidiano, que estavam naquela bolsa, mais difíceis de serem recuperadas do que meus documentos. E das quais eu gostava. Eram minhas. Bem minhas.

A agenda, com anotações do que teria que fazer nos próximos dias, com contatos e rabiscos, com receitinhas aleatórias e mapa da casa de amigos. A bolsinha de maquiagem, com aquele batom cremoso, de cor marrom, com brilho, que ganhei de presente da minha mãe e nunca vi igual por aqui. O óculos de sol grande e redondo, que tinha uma alça quebrada, colada com super-bonder pelo meu marido, que o fez com todo cuidado e carinho. O guarda-chuva vermelho, que era pequeno, fácil de guardar e me salvou de tanto apuro nos dias de chuva intensa ao sair do cabeleireiro – e me colocou em um tanto de apuro também nos dias de tempestade, já que era frágil e virava do avesso na primeira rajada de vento forte. O iPod, não o iPod em si, mas os 3,9 giga de músicas contidas nele, escolhidas com esmero, na ordem em que eu gostava de escutar.

Aquela caneta sem tampa.

Aquele pente sem dois dentes.

Há coisas que não se recuperam. Se substituem. Que são nossas durante muito tempo, mas no minuto seguinte não são mais. Que parecem fúteis, mas fazem falta. Não pelo poder de usufruto, e sim pelas características únicas que adquirem a partir do momento que passam a fazer parte de você. São suas. Bem suas.

Espero, pelo menos, que o ladrão faça bom proveito das coisas ex-minhas.

4 comentários:

Aline Espíndola e Fabiana Carvalho disse...

lê, já tive esta sensação também... Sabemos que não devemos nos apegar... Mas pôxa, as nossas "coisinhas" são nossas "coisinhas"... Mas lembramos que o que fica é sempre o mais importante! Adorei o post. Beijo!

Mariana Sena disse...

Ai, meu estepe... :´(

Clarinha disse...

Ando pensando há um tempo que as coisas sobrevivem aos homens. É incrível, elas permanecem e a gente vai embora...E as coisas contam muito das pessoas que as possuem ou possuíram. Tava visitando uns museus aqui em Londres e vendo como, a partir do Iluminismo, a humanidade passou a dar importancia às coisas materiais para pesquisar o passado das civilizações. Passamos a coletar de tudo pra tentar entender o mundo até hoje.
Tava com saudade dos seus textinhos!! Ah, sim, e o batom, aquele que vc nao acha mais por aí, deve ser substituído em breve! Nao será mais da mamae, mas...

Marco Aurelio disse...

Apesar da situação...ótimo texto! É estranho como a gente se apega a coisas materiais por vezes pequenas demais pra acharmos "correto" sentir a perda de tais coisas...
Antes perder dez reais do que arrebentar um cordão de coquinho que comprei de um hippie na rodoviária de São João del Rey enquanto esperava o ônibus pra Uberlândia... Dez reais sempre serão dez reais, mas o cordão é único!