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segunda-feira, 13 de abril de 2009

A Viagem do Elefante



Tenho um amigo que fica me repetindo, e cantando, um verso de música do Little Joy. “Saiba, o caminho é o fim mais que chegar”. The next time around (esse é o nome da tal música) só tem um pedacinho em português, cantado pela moça da banda, uma anglófona. Acho que meu amigo acha charmoso ela cantar com sotaque. E a idéia do versinho é mesmo boa e tem a ver com o último livro que li.

Também o caminho é que importa na história contada em A Viagem do Elefante. Foi lendo o mais recente livro de José Saramago que comecei a cumprir a primeira (e única) promessa que fiz aqui no blog. No post inicial, revelei como primeiro me encantei com a obra do português e me comprometi a escarafunchar o que ele tinha pra contar. Comecei pelo fim: seu último livro publicado.

Uma leitura que daria pra terminar nuns dois dias. São mais ou menos duzentas páginas em letras grandes. Eu levei quase um mês. Só lia quando estava em viagem pra entrar no clima (uma maluquice que tenho de combinar as experiências da vida concreta e de outra, imaginada). Outro motivo: no fim das contas, não queria me despedir do Salomão.

Ele não é a personagem principal, não fala nadinha na história inteira, mas foi com ele que muitas vezes me identifiquei. Salomão é o elefante. Nascido na Índia, tornou-se propriedade do rei português D. João III e virou presente deste para o primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V. A viagem é o longo caminho, durante o século XVI, que o elefante faz de Lisboa a Viena. Uma caminhada que aconteceu de verdade naquela época, mesclada com passagens inventadas, ironia, sarcasmo e humor de Saramago.

No trajeto, estradas e situações pedregosas, frio, gente com toda a sorte de características humanas comuns há tantos séculos quanto hoje, além do futuro incerto de Salomão e seu tratador, Subhro (a personagem principal). Saramago destrincha com perfeição as emoções de um e de outro, as vontades, as mesquinharias, os momentos de lucidez e de sonho, de companheirismo e generosidade. Salomão não precisa dizer, mas sabemos o que ele sente, o que pensa.

O narrador, onisciente, vai até a história e se distancia dela em movimentos perfeitamente envolventes para o leitor. Acompanhar a caravana que leva Salomão por despenhadeiros em meio ao gelo cortante e saber as opiniões do narrador sobre cinema (que sequer tinha sido inventado), sobre um filme feito centenas de anos depois da história contada, acerca de um episódio passado antes da travessia de Salomão, não guarda incoerências.

Ou conhecer a opinião do narrador, que, em muitas passagens, diz achar a escrita incapaz de relatar com precisão fatos que devem ser completados com a imaginação do leitor, ou com a invenção de quem conta a história. As impressões do narrador, que hora parecem vir da cabeça do cuidador do elefante ou de alguma personagem coadjuvante, só tornam essa viagem cada vez mais insólita e, de novo, envolvente.

É o caminho, muito mais que o destino, que interessa. Fico me perguntando por que rumos andou Salomão depois de chegar em Áustria.

Livro: SARAMAGO, José. Viagem do elefante (a). Sao paulo: Companhia das Letras, 2008. 260 p.
Compre o livro

Dá uma olhada na música do Little Joy:


Lyrics | Little Joy lyrics - The Next Time Around lyrics

2 comentários:

Letícia Tancredi disse...

Todos nós somos "Salomões". Poucos percebem.

Bonito texto, Clarinha!

Revisora do P... disse...

Acho que o bom é, quando chegar ao fim, olhar para trás e ver o quanto se fez.