sábado, 21 de abril de 2012

Brasília 52


Quando era criança, detestava o fato de ser brasiliense. Queria ser maranhense ou carioca, como meus pais. Queria ir embora da cidade sem mar, sem esquinas e sem vizinhos que vêm bater na porta pra papear. Queria ter sotaque - 'afinal, por que brasiliense não tem sotaque?' Detestava ser chamada de candanga. Mais ainda ouvir dizer que morava na cidade dos ladrões.

Tudo começou a mudar quando um dia - bem longe daqui - comecei a conversar com alguém que, pelo meu jeito de falar, me perguntou quase afirmando: 'Você é brasiliense, né?' Qual não foi a minha surpresa: brasiliense tem sotaque!

E fui além: minha cidade não tem mar, mas tem um céu que nenhuma outra tem. Não tem esquinas, mas quem precisa delas? Não tem vizinhos que se falam com frequência, mas tem gente boa em todo o canto e vinda de todos os lugares do Brasil e do mundo.

Sou candanga sim. Não ajudei a construir Brasília com a força dos meus braços, mas ajudo a modelar sua civilidade.

E por fim, se a cidade abriga tantos políticos corruptos, a culpa é de quem - em outros estados - os manda para cá, por meio da mediocridade dos seus votos. Não eximindo a culpa dos próprios eleitores do DF que também elegem mal seus governantes, claro.

Hoje, eu amo Brasília. Entendi que é peculiar demais ser brasiliense; afinal, somos poucos os nascidos aqui (não se vê uma velhinha nativa, por exemplo). Mas que, acima de tudo, todos os brasilienses carregam em si um pouquinho do Brasil todo.

Parabéns, Brasília! #52anos

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Amarrada, eu??


Tinha os dentes de cima bons, bonitos. Os de baixo eram tortinhos, mas nunca liguei. Achava que essa lógica euclidiana e dodecassílaba valia lá para os parnasianos, não para dentes. Aqui, onde triturava os alimentos, onde mascava pedaços de coisas, salivava e babava, lambia doces, feridas e pessoas... aqui na boca - pensava eu com meus botões - é bem mais honesto que exista uma desordem aparente, ainda que pequena.

De mais a mais, gostava dos tortinhos, da marca da mordida nos copos de plástico e maçãs. Achava que era inconfundível. Um belo de um dia, surge uma dor de cabeça. Os dentistas já haviam avisado que o aparelho era necessário, que podia acarretar enxaquecas, que havia lá um desvio na mandíbula, etc. Resolvi consultar o dentista que, logicamente, culpou a mordida pelas dores de cabeça e traçou um método para corrigir a mordedura. Tudo muito calculado. Fotos, radiografias, moldes. Dois anos de tratamento. Dois anos?? – perguntei atônita. Dois anos ou o resto da vida com enxaqueca – foi a resposta, das mais cínicas, como se vê.

Isso foi há um ano e quatro meses. Faltam oito, portanto. Não há um só dia em que eu não pense no assunto. Seja pelos lábios grudados no ferro do aparelho quando acordo ou pelas babadas incontroláveis que solto quando converso. Fato é que o danado do aparelho não me dá sossego, permeia meu cotidiano, sempre indelicado e incômodo. É a vergonha de sorrir, a necessidade de explicar, a preocupação com a limpeza, a dor quando me bato sem querer, a dificuldade de morder, a saudade do sorriso nas fotos e mais um tanto de coisinhas.

Hoje tive um insight. É um casamento. É um casamento! Isso de conviver tão entrelaçadamente, de me sentir tão exposta e vulnerável, isso é como um casamento. Estou seguindo – assim como quando me casei – as recomendações da sociedade. Fazendo tudo certinho para alcançar um bem maior ali adiante. Isso ou o resto da vida com enxaqueca, certo? Aquilo ou o resto da vida com a dúvida, com o receio de não ter tentado, sozinha num apartamento com 15 gatos, três cachorros e um papagaio, certo? Sei não, heim... os que já tiraram o aparelho sempre dizem que, extraídas as porções de ferro, a sensação é de nudez, de vazio. “Você vai sentir até falta” – já me disseram também. Seguindo a lógica do insight, deve fazer falta mesmo, especialmente num primeiro momento. Mas olha, minha gente...ninguém tira da minha cabeça que minha vida será melhor sem o aparelho. ;)

P.S: Não convém digitar “aparelho” e “boca” na pesquisa de imagens do Google.

quinta-feira, 22 de março de 2012

O motivo da tristeza

Fui à casa de minha mãe logo cedo para devolver as chaves do carro. Ela perguntou por que eu estava triste. Disse que era sono. O vigilante do trabalho perguntou, antes de cumprimentar, por que eu estava triste. Disse que era gripe. Ao meio dia, no refeitório, duas colegas perguntaram o que eu havia feito da Ana. Disse que a engoli e tomei o seu lugar. Depois do almoço, fui buscar um café na copa. As copeiras perguntaram se eu estava bem. Esgotei o arsenal de respostas. “Estou triste”, disse, “mas passa”. Elas perguntaram por que.

- Deus, entendi o recado. Favor acalmar os ânimos do seu exército de anjos. Resolvi ficar alegre, mas fique o Senhor sabendo que é por preguiça pura. Ficar triste é trabalhoso demais.